Como quer que seja, a causa da Beltraneja perdia terreno. Quatro novos projectos de casamento se haviam frustrado: com o duque de Guyena, com D. Fradique, filho do rei de Napoles, com D. Henrique Fortuna, primo coirmão do marido de D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal. Mas, alem d’estes, ainda houve um outro projecto mais antigo, como sabemos, relativo ao infante D. Affonso, que morrera. Andava a mão da pobre infanta em almoeda, e ninguem a queria! A familia dos Mendonças afrouxara tambem no seu enthusiasmo pela causa da Beltraneja, logo que o rei lhe arrancara a infanta para a confiar á guarda do mestre de S. Tiago.

Ao passo que a má estrella da Beltraneja parecia brilhar cada vez mais sinistra no horizonte do seu triste destino, os partidarios de D. Isabel logravam vantagens. Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór do rei e marido de D. Beatriz de Bobadilha, amiga dedicada de D. Isabel, pensou em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o fazer com fina diplomacia. D. Beatriz foi a Aranda, disfarçada em camponeza, perguntar á infanta se não teria duvida em avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel annuiu. Cabrera venceu, por certo, sem grande difficuldade, as hesitações do fraco rei Henrique.

Os dois irmãos avistaram-se em Segovia. Era isto em dezembro de 1473. O rei não só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a publicamente, levando de redea a mula, em que a infanta montava, atravez das ruas, ao som de musicas festivas. O mestre de S. Tiago, desairado por estas secretas negociações, retirou-se da côrte.

Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual viera juntar-se o infante de Aragão, continuava a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se juntos, e foi n’um d’esses banquetes, dado por André de Cabrera que, no domingo de Reis de 1474, o rei se sentiu indisposto depois de ceia. Fernando e Isabel visitavam na sua doença Henrique IV, mas não conseguiam arrancar-lhe a confirmação dos seus direitos ao throno. Por sua parte, o mestre de S. Tiago procurava desforrar-se do desaire recebido, procurando infundir suspeitas de que os infantes houvessem envenenado o rei.

Voltando á côrte, o grão-mestre induzia o rei a apoderar-se dos infantes, e assim teria acontecido se o plano não fosse denunciado a Fernando e Isabel.

O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se melindrosa. Não obstante, João Pacheco, senhoreando outra vez o espirito de Henrique IV, fez com que o rei o acompanhasse a Trujilho, para que o investisse na posse d’aquella cidade, diz Lafuente; para concertarem d’alli secretamente o casamento de D. Joanna com Affonso V, diz Zurita.

É certo que João Fernandes da Silveira, depois barão de Alvito, chegou a ir a Castella encarregado d’este negocio.[18] Mas a viagem aggravara os padecimentos do rei. Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas leguas da cidade, João Pacheco, acommettido de uma inflammação de garganta, morreu deitando muito sangue pela bocca.

A morte de João Pacheco, marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, impressionou o rei. Aquelle homem fôra o companheiro dos seus deboches quando principe, e o instigador de grande parte dos seus actos como rei; habituara-se a elle. Sentia-lhe agora a falta. Preso a esse cadaver por laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria, fazendo o filho de João Pacheco marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, sem sequer consultar os cavalleiros da ordem.

Levantaram-se reclamações e protestos, que o rei teve de reprimir com varias expedições. Este esforço quebrantou-lhe as ultimas forças. Abandonou a lucta, para voltar a Madrid, cada vez mais doente. Morreu a 11 de dezembro d’esse mesmo anno de 1474.

Assim acabou, n’este rei fraco e nefando, a linha varonil da dynastia Trastamara.