V
POR CAUSA DE UMA COROA

O veneno, propinado ao rei Henrique durante as festas de Segovia em honra de sua irmã D. Isabel,[19] produzira o desejado effeito, como vimos. O rei fallecera em Madrid, onde estava sua filha D. Joanna entregue aos cuidados do novo marquez de Vilhena, Diogo Lopes Pacheco. Mas a rainha achava-se ausente, apartada da côrte por seu deshonesto viver.[20]

Como quer que seja, vamos encontral-a, depois da morte do rei, habitando um predio junto á egreja de S. Francisco, de Madrid, que fôra demolida no anno de 1760. Parece que D. Joanna, sentindo o cançaço de uma vida tempestuosa, procurara o refugio de uma especie de cenobio, d’onde, em tribuna privativa, podia assistir aos officios religiosos que se celebravam no templo.

São mais ou menos suspeitos de paixão politica os historiadores castelhanos, que se occupam do procedimento da rainha. Uns, como Henriques de Castilho, pertencem á parcialidade do rei; outros, como Pulgar, militavam na facção de D. Isabel. O padre Flores, querendo mostrar-se imparcial, chama pelago insondavel ao conceito que da infeliz rainha se fazia em Castella.

Um historiador portuguez, o auctor da Historia genealogica, escreve que D. Joanna fôra «formosa, viva, e naturalmente alegre; era moça, e mais desenvolta do que convinha á sua real pessoa, o que deu motivo a diversos juizos, que se augmentaram pelo pouco caso que el-rei d’isso fazia; do que nasceu alguns cuidarem, e outros fingirem, e lhe levantarem, que era pouco honesta, e que el-rei lh’o consentia.»

Um d’esses taes é Antonio de Lebrixa, o qual escreveu que era o proprio Henrique IV que alcovitava a rainha a um seu privado (Beltrão de Lacueva).