Damião de Goes censura Lebrixa por affirmar ex cathedra, sem ser testemunha de vista, a infamia da rainha; mas acaba por dizer que a fama da impotencia de Henrique IV era falsa, comquanto não houvesse sido testemunha de vista, elle proprio...
Nós estamos escrevendo a distancia de tempo a que os acontecimentos avultam em todo o relevo da sua nudez historica. Cahiu já desfeito, pela acçao implacavel dos seculos, o véo que a paixão politica entretece, e que não deixa definir claramente os contornos mais salientes de qualquer epocha, como a neblina envolve a ossada dos montes ao romper da manhã.
Começamos por estudar serenamente a côrte de Henrique IV, devassa, dissoluta, sensual. Esboçamos o perfil do rei, que presidia a esta côrte, rei que se retouçava na podridão de prazeres sodomitas, e parecia talhado de molde para deixar resvalar ao abysmo da deshonra a segunda mulher, visto que não quizera repudial-a pelo mesmo motivo da primeira, a infeliz Branca de Navarra. D. Joanna, de Portugal, era moça, formosa, alegre, viva, como diz Antonio Caetano de Sousa. Cahiu no meio d’esta côrte, como uma flor póde cahir em qualquer esterquilinio sotoposto ao jardim, sobretudo quando a haste tem o geito de pender para esse lado, e uma perfida viração a faz oscillar a cada lufada mais forte...
Basta ir seguindo os acontecimentos, para ver descer a rainha pelo plano inclinado do adulterio. Não é preciso ler os chronistas para copiar d’elles a sua apreciação, mais ou menos apaixonada, mas apenas para que nos guiem na successão dos acontecimentos. A critica é facil, resalta luminosa e logica. Aconteceu-nos isto, confrontando os chronistas; o mesmo acontecerá por certo ao leitor que tiver seguido passo a passo esta narrativa.
D. Joanna falleceu a 13 de junho de 1475, tendo apenas 36 annos de edade. Matou-a o veneno ou o arrependimento; morreu ou mataram-n’a. E diz a chronica que os reis catholicos, Isabel e Fernando, lhe mandaram fazer um tumulo de marmore branco, cujo epitaphio dizia:
Aqui yace la mui excelente, esclarecida y poderosa Reyna de Castilla Doña Juana, muger del muy excelente, esclarecido y poderoso Rey Don Enrique IV. cuyas animas Dios aya: la qual falleció dia de San Antonio de MCCCCLXXV. años.
Mais tarde, a habitação da rainha foi convertida em nave do templo; chamava-se-lhe a capella da Aurora, e ficava do lado do Evangelho. Quando a egreja de S. Francisco foi demolida, acharam-se os ossos da rainha dentro de um cofre de madeira, mas não se sabe hoje o destino que tiveram depois da demolição.[21]
Assim se dispersaram os restos mortaes d’essa formosa dama portugueza, que o berço em que nascera posthuma parecia haver malfadado para as desventuras do thalamo, e do throno.
Fizera Henrique IV testamento?