Ruy de Pina, na Chronica de D. Affonso V,[22] diz que sim.

«No fim do anno de mil quatrocentos setenta e quatro, palavras suas, el-rei D. Henrique, de Castella, falleceu na villa de Madrid; foi seu corpo levado ao mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella-mór, á mão direita, jaz em sua real sepultura, como parece, e da outra parte jaz a rainha D. Maria, sua mãe. Fez el-rei D. Henrique seu solenne e accordado testamento, em que declarou a princeza D. Joanna por sua filha, e por rainha herdeira dos reinos de Castella, e o rei D. Affonso por governador d’elles, pedindo-lhe finalmente que acceitasse a dicta governança, e casasse com ella, o qual testamento foi logo trazido a el-rei D. Affonso, que estava em Extremoz... etc.»

Os chronistas castelhanos corrigem n’este ponto o chronista portuguez.

Zurita diz positivamente nos Anales que D. Henrique não deixou testamento.

O padre Castilho não faz menção de qualquer disposição testamentaria. Affonso de Palencia diz que, perguntado o rei sobre quem lhe devia succeder no throno, respondera que o secretario João Gonçalves revelaria a sua intenção. Fernando de Pulgor refere que apenas indicara os fidalgos a quem seria confiada a guarda de sua filha. Lucio Marineo escreve que Henrique IV, sempre imprevidente, não deixara testamento. Marianna conta que, perguntado o rei pelo seu confessor frei Pedro de Mazuelos, respondera que reconhecia como herdeira a princeza D. Joanna, a qual deixara recommendada a alguns fidalgos, inclusos os marquezes de Santilhana e de Vilhena. A Lafuente parece arriscada esta asserção de Marianna, que aliás vem copiada em Romey.

Diogo Clemencin[23] é de todos os historiadores castelhanos o que mais detida e lucidamente se occupa da questão do testamento de Henrique IV.

Recorda a lenda, publicada por Galindes de Carvajal, de que o rei Henrique fizera, ao morrer, testamento, no qual reconhecia como sua successora D. Joanna, e de que esse documento fôra pelo secretario João de Oviedo entregue a um padre que era cura de Santa Cruz, em Madrid. Não querendo que o desapossassem de tão valioso deposito, o cura metteu-o n’um cofre com outros papeis, e veio escondel-o perto de Almeida, em Portugal. O bacharel Fernam Gomes de Herrera, amigo particular do cura, conhecia o segredo, e revelou-o a D. Isabel a Catholica, quando já estava moribunda. A rainha mandou o cura buscar o cofre, que chegou quando ella já tinha morrido. O rei Fernando soube o que se passava, pelo licenciado Zapata, a quem Herrera revelara o segredo. Diziam uns que o testamento fôra queimado por ordem do rei; outros que ficara em poder de Zapata. A Herrera teriam sido feitas varias mercês, em recompensa do serviço que prestara.

Clemencin refuta esta lenda com bons fundamentos, entre elles o não ser citado por D. Joanna o testamento de Henrique IV quando ella allegava todos os seus direitos em manifesto dirigido á cidade de Madrid (1475), e a circumstancia de egual omissão no documento em que a Beltraneja transferiu para D. João III, de Portugal, todos esses direitos.

Como quer que fosse, em torno da Beltraneja agrupou-se um partido defensor da sua legitimidade. Os caudilhos eram grandes e poderosos senhores, posto não fossem numerosos: entre elles, o marquez de Vilhena, menos habil, porêm mais intrepido que seu pae; o opulento duque de Arévalo; o moço marquez de Cadiz, e o grão-mestre de Calatrava e seu irmão.