No partido contrario, militavam em favor de D. Isabel prelados e proceres egualmente poderosos. Citaremos o arcebispo de Toledo, que foi quem se apressou a communicar a Fernando o Catholico, em carta que Zurita reproduz, a noticia do fallecimento de Henrique IV.

Não deixa, comtudo, de ser curioso que este prelado se bandeasse depois com o partido da Beltraneja, despeitado pelo ascendente, que no espirito de Fernando e Isabel havia tomado o cardeal de Hespanha.

Não seria, pois, uma copia do testamento, que parece não ter existido, o que os partidarios da Beltraneja enviaram a Affonso V, que estava então em Extremoz; mas foi de certo uma mensagem solicitando o seu apoio a troco do casamento com a infanta, sua sobrinha, e da coroa de Castella.[24]

Não me esquivarei a citar, a respeito d’esta mensagem, as palavras do historiador hespanhol Lafuente, porque raras vezes um escriptor extrangeiro é tão fiel e tão exacto nas suas apreciações.

«A ninguem, tanto como ao monarcha portuguez, diz elle, podia lisonjear uma tal proposta. De genio naturalmente cavalheiroso, desvanecido com a denominação de Africano, que os seus triumphos contra os moiros barbarescos lhe haviam valido, e um dos pretendentes anteriormente repellidos pela rainha Isabel, Affonso acolheu com avidez um convite que lhe proporcionava apresentar-se como reparador de um desaire, que recebera da rainha, como vingador de um rival preferido, como o campeão de uma princeza desgraçada, e como conquistador de uma coroa, que, alcançada para sua sobrinha, havia de ver collocada na sua propria cabeça. De modo que a empresa satisfazia simultaneamente o seu espirito cavalheiresco, o seu orgulho offendido, a sua cobiça e ambição de gloria.»

Conforma-se com o testemunho de Ruy de Pina o testemunho de Lafuente, quando affirma que o principe herdeiro de Portugal, D. João, procurara inflammar os brios guerreiros de seu pae, aconselhando-lhe a guerra com Castella. Tambem concorda com o chronista portuguez o historiador castelhano, quando refere que o duque de Bragança e o arcebispo de Lisboa foram de parecer contrario ao do principe. O que é certo é que Affonso V mandou a Castella o seu camareiro-mór, Lopo de Albuquerque (depois conde de Penamacôr), encarregando-o de informar-se pessoalmente sobre a importancia e valor que podiam ter os partidarios da Beltraneja. O emissario de Affonso V recolheu com boas informações, depois de praticar com os mais exaltados adversarios de D. Isabel, entre os quaes se contava, como sabemos, o marquez de Vilhena. Não obstante as boas novas com que Lopo de Albuquerque chegou a Evora, onde estava o rei, em Janeiro de 1475, parece que de novo foram ainda ponderados a Affonso V os inconvenientes da empresa; mas a fogosidade do principe venceu a opinião dos que discordavam.

O rei de Portugal mandou deitar pregão de guerra. Em Arronches devia reunir-se o exercito, no mez de maio. N’esse sentido foram expedidas ordens. Comtudo, alguem lembrou a Affonso V a conveniencia de mandar primeiramente uma embaixada a Fernando e Isabel, reivindicando os direitos de D. Joanna. Foi escolhido para esta commissão Ruy de Sousa, que a desempenhou. Lafuente diz que Affonso V tivera a arrogancia de fazer uma intimação aos reis para que renunciassem a coroa em favor de D. Joanna.

Nas disposições em que se encontrava Affonso V, é natural que mandasse pôr a questão em termos categoricos. De mais a mais, como ainda teremos occasião de mostrar, os embaixadores portuguezes não costumavam sossobrar perante a altivez castelhana. N’um e n’outro paiz, as situações estavam claramente definidas, porque se Affonso V convocara o exercito para Arronches, em Segovia tinham sido alçados pendões reaes ao som de Castilla por el rey Don Herñando, y la reina Doña Isabel, su muger, proprietaria destos reynos.

A resposta de Fernando e Isabel é facil de adivinhar. Responderam mantendo os seus direitos, e requereram a Affonso V que não entrasse em Castella. Diz Lafuente, que a intimação do rei de Portugal fôra nobremente repellida, mas accrescenta que D. Isabel dirigiu differentes embaixadas a Affonso V, exhortando-o com palavras de moderação a que desistisse da empresa. Os emissarios dos reis catholicos foram varios religiosos, segundo Zurita.

No mez de maio, estava o rei em Arronches, apercebido para a marcha. O principe D. João acompanhou-o ao alto Alemtejo, onde concertaram, pae e filho, negocios particulares e do Estado, para o caso do rei perecer em combate. Foi em Portalegre, a 28 de abril, que Affonso V dictou o seu testamento, escripto por frei João de S. Mamede, confessor do rei: «... eu tenho determinado, diz Affonso, d’aqui a poucos dias entrar em os reinos de Castella, com fundamento de casar com a rainha, minha sobrinha, e isto por serviço de Deus e por melhor podermos defender seu direito, segundo é já entre nós capitulado...»