N’este curioso documento refere-se Affonso V aos enormes gastos que foram feitos com o casamento de sua irmã D. Leonor com o imperador da Allemanha, attribuindo-os á pouca edade que então tinha, e á falta de experiencia. Declara ter dois filhos legitimos, a infanta D. Joanna, que falleceu em Aveiro, com reputação de santa, posto a sua vida não fosse inteiramente isenta de culpas,[25] e o principe D. João que, segundo os estylos do reino, proclama herdeiro da coroa.
Tambem em Portalegre, e primeiro que o seu testamento, assignara Affonso V a carta regia pela qual declarava regente do reino seu filho, o infante D. João.[26]
Estavam já em Arronches pae e filho, quando chegou noticia de que D. Leonor, mulher do principe herdeiro, havia dado á luz o infante D. Affonso, que tão pouco vivera e tão desastrosamente acabara. «E por seu nascimento, diz Ruy de Pina, declarou logo el-rei, sendo caso que o principe D. João, seu filho, em sua vida fallecesse, a tempo que elle rei tivesse outro filho lidimo da rainha D. Joanna, sua esposa, com quem havia de casar, que ao dicto infante D. Affonso sempre pertencesse e viesse a successão dos reinos de Portugal, e que para isso fosse logo jurado e obedecido...»
Tratou-se, pois, de entrar em Castella ao som de guerra.
A fim de melhor garantir o successo da empresa, Affonso V tratou de entender-se diplomaticamente com o rei de França, Luiz XI, como vamos ver.
Em 1471, o marquez de Vilhena representou a Luiz XI pedindo-lhe que auxiliasse o rei de Portugal. Expunha quaes eram as forças de que Affonso V podia dispor: elle marquez, tres mil cavallos; o arcebispo de Toledo, dois mil; o mestre de Calatrava, dois mil; o bispo de Calatrava, dois mil; o bispo de Burgos, trezentos; o conde de Horoianna, trezentos; D. Affonso, senhor de Montalvão, duzentos; D. Affonso e D. João, filhos bastardos do mestre de S. Tiago, quatrocentos; D. Pedro de Porto Carreiro, irmão do marquez, quatrocentos; a condessa, mãe da mulher do marquez, trezentos; o duque de Arévalo, dois mil; o marquez de Cadiz, genro do mestre de S. Tiago, mil e quinhentos; o duque de Sevilha, dois mil; D. Affonso de Aguillar, seiscentos; o conde de Feria, quatrocentos.
Toda esta gente de armas, com a que o rei de Portugal poria em movimento, dava um exercito de trinta e dois mil homens. Accrescentava o emissario do marquez de Vilhena que se o rei de França continuasse a fazer guerra ao de Aragão, na Catalunha, elles o poriam em tal aperto que seria obrigado a desistir das suas pretensões ao reino de Castella.[27]
Vê-se, pois, que, contando com todos estes recursos, Affonso V não procedeu tão levianamente como pretendem alguns chronistas castelhanos.
Por sua parte, o rei de Portugal escreveu a Luiz XI, revelando-lhe as intenções em que estava de desposar sua sobrinha D. Joanna, e declarar guerra a Castella, promettendo que, se lograsse alcançar victoria, ficariam cada vez mais estreitadas as relações de antiga amizade entre as duas coroas de Castella e França. Passava-se isto a 8 de janeiro de 1475, e logo no fim d’esse mesmo mez tornava Affonso V a escrever a Luiz XI, dizendo-lhe que receando qualquer demora na entrega da primeira carta, escrevia de novo allegando os direitos de D. Joanna ao throno de Castella, e pedindo-lhe favorecesse a causa d’esta princeza, cujo triumpho seria mais conveniente á politica franceza do que a victoria do ambicioso rei de Aragão. Participava haver pedido o auxilio do papa, e rogava a Luiz XI que no mesmo sentido escrevesse ao pontifice.
Em abril respondia Luiz XI accusando a recepção da primeira carta, de 8 de janeiro, e dizendo que encarregara Olivier le Roux de vir a Portugal responder aos artigos d’ella; que estando já Olivier a caminho, recebera a segunda carta; que se dera pressa em escrever ao papa no sentido desejado, despachando como portador um emissario para Roma.