VI
A BATALHA
Aposentou-se Affonso V com D. Joanna na fortaleza de Plasencia. Ahi deslizaram alguns dias perdidos em festas e prazeres, diz Pina. Affonso V iniciou a campanha de Castella por dois graves erros, reconhecidos pelos proprios chronistas castelhanos. Zurita diz que se Affonso V, em vez de entrar por Plasencia, tivesse entrado pela Andaluzia, Sevilha não poderia resistir por muito tempo a um cêrco, e que, tendo elle por si Sevilha, se renderiam logo outras cidades, favoraveis a D. Joanna, ficando-lhe livre o caminho até aos confins do reino de Aragão; e que se houvesse querido dirigir-se para Toledo, onde o arcebispo e o marquez tinham poderio, haveria logrado chegar até Segovia. Accrescenta que Affonso V se demorara nas festas de Plasencia mais do que lhe convinha.[28] Lafuente escreve no mesmo sentido, dizendo que o rei de Portugal, demorando-se em Plasencia e Arévalo, dera tempo a que Fernando e Isabel supprissem á força de actividade a falta de dinheiro e de apercebimentos de guerra.[29]
Mas o que é certo é que Affonso V se demorou em Plasencia, onde celebrou publicamente desposorios com sua sobrinha,[30] e ambos foram proclamados reis de Castella, Leão e Portugal. Ruy de Pina observa «... e chamou á rainha esposa, com a qual então nem depois nunca consumou o matrimonio, por defeito de dispensação, que não tinha nem houve nunca.» Mais tarde trataremos este ponto. Por agora, para não interromper a narrativa com longas divagações, diremos que D. Affonso V tratou de fazer publicar o Manifesto dos direitos de D. Joanna ao throno de Castella. Sousa[31] copiou-o de Zurita; tem a data de 30 de maio e é dirigido á villa de Madrid. N’esse documento, que é extenso e que está bem escripto, D. Joanna historía todos os acontecimentos politicos do reinado de Henrique IV, que o leitor já conhece. Accusa Fernando e Isabel de terem envenenado ou mandado envenenar o rei. Insiste em que elle a reconhecera publicamente como filha e herdeira, no leito da morte, porêm não fala em testamento. Allude, com a desenvoltura que o assumpto requeria, á supposta impotencia de seu pae, affirmando ás claras que elle era hombre poderoso para engendrar. Referindo-se a seu tio e noivo, diz: «O que tudo visto pelos dictos duque de Arévalo e marquez de Vilhena, como meus tutores, guardadores, usando da lealdade e fidelidade que me devem, e acatando, como o mais alto e mui poderoso principe D. Affonso, por a graça de Deus rei de Portugal, e rei de Castella e de Leão, que agora é meu senhor, e principe mui catholico, e de grande fama, exemplo e de grã virtude e prudencia, para manter e governar estes dictos meus reinos, em justiça e verdade, como cumpre ao serviço de Deus, e meu, e ao regimento, e reparo, e restauração d’elles para o futuro, e conformando-se com a vontade do dicto rei meu senhor, que em sua vida, com accordo de muitos prelados e grandes, diversas vezes o negociou e procurou, accordaram e assentaram com elle, que casasse, e celebrasse desposorio commigo: e para isso viesse e entrasse n’estes dictos meus reinos como rei, e senhor d’elles, como meu legitimo esposo, e marido. E estando eu na cidade de Turgilho, sob a salvaguarda do dicto marquez de Vilhena, o dicto rei meu senhor enviou seu embaixador e procurador com seu poder bastante, para se desposar, e desposou commigo, em legitima e devida fórma: e depois, estando n’esta cidade de Plasencia, ... dias do mez de maio d’este anno, da data d’esta minha carta, o dicto rei meu senhor chegou á dicta cidade por sua pessoa, e desposou-se e dio las manos comigo: e solennemente jurou, e fez voto solenne, de nunca me sacar fóra d’estes dictos meus reinos, nem sua senhoria sahir fóra d’elles, até, mediante a graça de Deus, os acalmar e pacificar.» Noticía depois como se celebrara o acto da acclamação, e ordena que, logo que aquella carta regia recebam, se ajuntem todos por pregão e alcem pendões pelo dicto rei D. Affonso. Diz constar-lhe que os reis da Sicilia têem feito espalhar o boato de que os portuguezes são por indole hostis aos castelhanos. Desmente este boato, recorda o parentesco e amizade de Affonso V com a casa real de Castella, e accentua que os portuguezes são christãos catholicos, e obedientes á vontade do seu rei.
Um dos pontos que melhor estão tratados no Manifesto, é o que se refere á desobediencia de D. Isabel, tendo fugido da côrte para casar com o rei da Sicilia, que era extrangeiro, não confederado, nem alliado com Henrique IV, quando ella o não podia nem devia fazer, não só por ser contra vontade do rei, mas tambem porque as leis do reino dispunham que as donzellas, menores de vinte e cinco annos, não casassem sem consentimento de seus paes e irmãos mais velhos. De mais a mais, Fernando e Isabel eram parentes em grau prohibido, e não tinham obtido dispensação apostolica.
Lembra finalmente D. Joanna quanto Fernando e Isabel fizeram para se apoderar do thesoiro real de Segovia, como se apoderaram de todo o oiro e prata, joias, brocados e pannos, que deixara Henrique IV, não dando, nem consentindo que se désse para o seu enterro e sepultura o que para qualquer pobre cavalleiro de seu reino se dera, e tentando havel-a á mão para a fazerem encarcerar perpetuamente ou porventura matar.
Como se vê, o Manifesto está habilmente redigido; procura ferir todas as notas, tanto a da legalidade, como a da sentimentalidade.
D. Affonso V tambem escrevera á cidade de Salamanca, sobre o direito de D. Joanna á coroa de Castella,[32] e procurara apoiar-se na diplomacia para corroborar o effeito que esperava colher da publicação dos manifestos.