O castello de Touro rendera-se, finalmente, ao apertado cerco que lhe puzera Affonso V. Em varios pontos, aqui e alli, rompiam-se as hostilidades; e os povos da Estremadura hespanhola e da Andaluzia faziam varias incursões sobre Portugal, como represalia de guerra. Em Burgos, a cidade estava por D. Isabel, mas o castello estava por D. Joanna. Fernando, a fim de attenuar a má impressão de Touro, foi cercar o castello, que se julgava uma posição importante, no presupposto de que Luiz XI acommettesse por Guipuzcoa. Affonso V, a instancias da duqueza de Arévalo e do arcebispo de Toledo, deixou D. Joanna em Samora, e dirigiu-se a Burgos para soccorrer o castello. Encontrou, porêm, a tomarem-lhe o passo reforços isabelistas em Baltanás, aos quaes Affonso V deu combate, pondo cerco á villa. A peleja foi renhida. Os portuguezes combatiam a pé, só o rei de Portugal estava a cavallo. Morreu ahi D. Alvaro Coutinho, filho do marechal, mas em compensação ficou prisioneiro o conde de Benavente, cunhado do marquez de Vilhena, que, por segurar a vida, diz Pina, constrangidamente a veio em pessoa pedir a Affonso V, de cima do muro, e o portuguez de viva voz lh’a outorgou.

A condessa de Benavente, ao saber do captiveiro do marido, exaltou-se a tal ponto que escreveu a Fernando o Catholico, pondo á sua disposição e obediencia todas as villas e fortalezas dos seus estados, que eram grandes. Assim, a paixão politica, como quasi sempre acontece nas guerras civis, abria barreiras profundas no seio de uma mesma familia! A condessa de Benavente era irmã do marquez de Vilhena.

As finanças de Portugal e Castella estavam seriamente compromettidas, em ambos os paizes, por causa da guerra. Isabel reunira côrtes em Medina del Campo, no mez de agosto e, não podendo já impor aos povos novas contribuições, appellou para o clero, propondo-lhe que entregasse ao thesoiro a prata de todas as egrejas de Castella, promettendo remil-as em tres annos por amortização de trinta contos de maravedis. O clero annuiu promptamente. Por sua parte, Affonso V, depois de haver tomado a villa de Cantalapiedra, e de se ter recolhido a Samora para hibernar, tendo gasto já todos os recursos com que sahira de Portugal, teve de «soccorrer-se aos dinheiros dos orfãos dos seus reinos, e a outros muitos d’emprestimos particulares», que por seus officiaes foram logo levados a Castella.[36] Accrescenta Ruy de Pina que o principe D. João, depois que foi rei, pagou, como piedoso filho, todos estes encargos quanto poude. Mas tambem D. João, quando resolveu ir soccorrer seu pae, teve de tomar de emprestimo a prata das egrejas, a exemplo do que fizera em Castella D. Isabel.[37] Esta desastrosa guerra parecia destinada a arruinar as finanças de Portugal. Em treze mezes, o exercito mobilizado contra Castella havia de custar ao paiz duzentas setenta e cinco mil dobras.[38]

O principe D. João, ao mesmo passo que tinha de reger os negocios internos do reino e de levantar recursos para acudir a seu pae, via-se a braços com as incursões armadas que alguns cavalleiros castelhanos faziam pela fronteira. Uma d’essas incursões dirigiu-se contra a villa de Ouguella, morrendo na refrega o brioso fidalgo João da Silva, camareiro-mór do principe.

Em Castella, D. Isabel entabolava negociações com o alcaide das torres e portas da ponte de Samora, para que se entregasse, procurando assim arrancar a Affonso V uma das mais importantes fortificações que tinham voz por elle. Fernando estava no cerco de Burgos, e, sabendo dos planos de sua mulher, fingia-se doente para lhe dar tempo a negociar a compra do alcaide da ponte de Samora.

Affonso V havia mandado recado a seu filho para em Samora conferenciarem sobre negocios de Estado.

D. João deu-se pressa em partir, e já tinha chegádo a Miranda do Douro, quando por Vasco Chichorro, o qual de noite atravessou o Tejo a nado, seu pae lhe mandou dizer que retrocedesse, porque seria victima de traição na passagem da ponte de Samora. Esta ponte tinha nos extremos duas torres que estavam combinadas para apertar o principe real entre ambas, quando elle passasse com a sua gente. Eis no que consistia a traição preparada por Isabel. Affonso V indignou-se, e atacou os castelhanos, mas por este facto teve occasião de reconhecer que não podia contar com a lealdade dos habitantes de Samora, pelo que resolveu mudar-se, com a Beltraneja, para Touro, onde o alcaide os recebeu amavelmente.

O principe real ficou vivamente contrariado com o caso da ponte de Samora, e pensou logo em tirar desforra d’esse projecto de attentado contra a sua vida. Retirando sobre a cidade da Guarda, ahi reuniu conselho, resolvendo-se enviar novos auxilios a D. Affonso V, para o que foi preciso tomar, como dissemos, toda a prata das egrejas e mosteiros, com excepção d’aquella que era indispensavel á dignidade do culto; bem como se tomou dinheiro de emprestimo a particulares. E não sem grandes dores e gemidos do povo, que o muito sentiam, diz Ruy de Pina. Feitos estes preparativos, o principe D. João, deixando sua mulher como regente do reino, partiu no mez de janeiro de 1476 para Castella, a encontrar-se com o rei, ao qual ia reforçar, tomando na passagem a villa de S. Felizes, que saqueou.

Entretanto, el-rei D. Fernando e a rainha D. Isabel entraram em Samora, e puzeram cerco ao castello, que tinha voz pelo rei de Portugal. O desejo de Affonso V era ir em soccorro da fortaleza, que D. Fernando parecia disposto a disputar-lhe palmo a palmo.

D. Affonso estava em Touro, como sabemos, e logo que o principe D. João ahi chegou pensou-se em ir effectivamente defender o castello de Samora, mas, depois de ponderados os prós e os contras, achou-se que o melhor era pôr cerco á ponte da outra banda do rio, causando assim grande damno a D. Fernando e aos da cidade.