Uma vez assenhorado de Samora, tratou Fernando de combater o castello, que se conservava fiel a Affonso V, e d’ahi escreveu a seu pae, João II, de Aragão, pedindo-lhe que mandasse auxilios para Burgos, cujo castello não se tinha ainda rendido.

Diz Lafuente, que Affonso V se não mostrara adverso a uma reconciliação, sob condição de que lhe seriam entregues as praças de Touro e Samora, e aggregada a Galliza a Portugal, mas que D. Isabel se recusara a alienar um só palmo que fosse de territorio castelhano.

Lafuente trata este assumpto muito por alto, mas Damião de Goes dá interessantes pormenores que convem recordar.

O cardeal de Castella, D. Pedro de Mendonça, escrevera a Affonso V exhortando-o a fazer a paz, e offerecendo-se para medianeiro. Era facil perceber que esta proposta partia dos reis catholicos, sob a impressão de desanimo que produzira a precipitada retirada de Touro para Medina del Campo. Affonso V annuiu, e perguntou se Isabel e Fernando tinham conhecimento d’essa proposta, e quaes deveriam ser as condições da paz. Respondeu o cardeal que Fernando e Isabel obtemperavam, mas que as condições as formulasse Affonso V. O rei de Portugal pediu com largueza, aproveitando a situação: queria Touro, Samora e a Galliza; exigia uma indemnização de guerra, e a restituição de todas as honras e estados que pertenciam aos fidalgos castelhanos bandeados com o partido da Beltraneja. Isabel oppoz-se á alienação de qualquer territorio castelhano, porêm sujeitava-se á indemnização de guerra e á rehabilitação dos fidalgos castelhanos que estavam com Affonso V. Promettia tambem para D. Joanna o dote que se arbitrasse, hypothecando a este encargo as terras que fossem precisas.

Damião de Goes, conclue: «Estes recados andaram por alguns dias de uma e de outra parte, sem se em nada poder tomar conclusão, pelo que a guerra se ateava cada vez mais, fazendo-se de uma e de outra parte grandes damnos, sem se a tamanhos males poder dar algum remedio».[39]

Seria talvez esta proposta de paz que fez com que Luiz XI procurasse intimidar Fernando e Isabel. Diz Lafuente que Affonso V havia manhosamente entabolado tratos de mediação e de concordia com D. João II, de Aragão, para entreter Fernando, emquanto o principe D. João não chegava de Portugal com reforço, e Luiz XI não atacava pela fronteira franceza o reino de Aragão.

O que é certo é que Affonso V conseguira tratar com Luiz XI uma liga offensiva contra o aragonez. Luiz XI aproveitava o ensejo para se collocar n’uma posição que pudesse ser-lhe vantajosa em qualquer dos casos. Assim, em setembro de 1475, ficara concertado que o rei de França ajudaria ao de Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão, com as condições seguintes: «Que todas as cidades, villas, logares, castellos e fortalezas que fossem tomadas ou conquistadas por terra e por mar pelas tropas d’el-rei de França, nos dominios do reino de Aragão e de Valencia, seriam sem difficuldade entregues e restituidas a el-rei de Portugal, e ficariam para sempre pertencendo a esta coroa. E pelo mesmo teor que todas as cidades, villas, logares, castellos e fortalezas do principado da Catalunha e condado do Roussillon e Sardenha, ilhas de Mayorca, Minorca e Iviça, as quaes cahissem em poder dos portuguezes, seriam entregues a el-rei de França, para ficarem para sempre annexas á sua coroa.»[40]

Luiz XI, tendo feito treguas com o duque de Borgonha, por um tratado em que o rei de Portugal fôra incluido como alliado do duque, principiou a dar maior attenção aos negocios da Peninsula, sob o doble ponto de vista da sua exclusiva conveniencia. Foram, pois, renovados os antigos tratados de paz e amizade entre os reinos de Castella e Leão e o de França, figurando Affonso V na qualidade de rei de Castella. No mez de dezembro, Luiz XI promulgara uma carta patente declarando ter resolvido mandar, em auxilio do rei de Portugal, um bom e grande exercito, tanto por mar como por terra, a Guipuzcoa e Byscaia, ou aonde fosse necessario, nomeando para commandante em chefe da expedição a sire d’Albret (Alano Grande, pae do rei de Navarra), com poderes amplissimos.[41]

O que é certo é que Luiz XI, não obstante todas estas suas promessas, se limitara a mandar para a fronteira hespanhola um exercito que parecia manobrar de concerto com a doblez do bom rei Luiz, porisso que, fazendo-lhe frente os guipuzcoanos e os byscainhos, retirava para Bayona... á espera dos acontecimentos.

Quando o principe D. João de Portugal, levando comsigo um exercito de oito mil infantes e dois mil cavallos, gente mal armada e pouco aguerrida, diz Lafuente, fôra juntar-se com seu pae em Touro, o castello de Burgos, depois de haver sido atacado por D. Affonso de Aragão, irmão de Fernando, rendia-se. E, segundo o testemunho do mesmo historiador, pouco faltou para que a propria praça de Touro se entregasse a D. Fernando, que uma noite se approximara dos muros da cidade com essa esperança. Parece fóra de duvida, como mais adeante veremos, que D. Fernando pensava em apoderar-se da pessoa da Beltraneja.