É ainda Lafuente que nos diz, que D. Affonso V se envalentonara tanto com a chegada do filho, que enviou um arrogante manifesto ao papa, ao rei de França e aos seus parciaes de Castella e Portugal, jactando-se de que não tardaria a derrotar Fernando e Isabel. Não encontro, comtudo, nos historiadores portuguezes noticia d’este manifesto arrogante.
Deixemos, porêm, Affonso V e seu filho no cêrco que foram pôr á ponte de Samora, na margem do Douro. D. Joanna havia ficado em Touro, sob a guarda do duque de Bragança e do conde de Villa Real. Cruzava-se o fogo dos portuguezes contra a ponte, com o dos castelhanos contra a margem opposta. Procedentes de Burgos, tinham chegado de reforço aos castelhanos D. Affonso de Aragão e o infante D. Henrique, aos quaes se unira o conde de Benavente, livre já. A situação era dolorosa para ambos os exercitos, ao mesmo tempo sitiados e sitiadores.
Ruy de Pina diz que, n’estas circumstancias, houve uma entrevista, n’uma insua do rio Douro, para concertos de paz, entre cavalleiros portuguezes e castelhanos, mas que não foi possivel chegar a resultado satisfactorio. Outra versão diz que a entrevista seria entre os dois reis, estando cada um em sua barca, como acontecera com D. Fernando de Portugal e Henrique III, de Castella, mas que, pela força da corrente, a barca de Affonso V se não pudera approximar da barca que conduzia o marido de Isabel.
O portuguez, conhecendo que a sua posição era insustentavel, porque já os mantimentos iam escaceando, e porque recebeu denuncia de que D. Fernando pensava em fazer uma sortida sobre Touro para apoderar-se de D. Joanna,[42] resolveu levantar o acampamento na madrugada da primeira sexta-feira de março de 1476, em direcção áquella cidade, depois de haver cortado a extremidade da ponte de Samora. Esperava Affonso que o exercito castelhano o seguisse. Assim aconteceu. Diz Pina que o principe D. João ardia em desejos de dar batalha; o mesmo assevera Lafuente a respeito de D. Fernando, apesar dos conselhos que lhe dava seu pae, o rei de Aragão, o qual lhe recommendava o systema que empregou Fabio Maximo, Cunctator, fatigando e desalentando os exercitos de Annibal.
Não se enganou Affonso V. Fernando demorara-se apenas tres horas, o tempo preciso para reparar o damno feito á ponte. Ao cahir da tarde, o exercito castelhano avistou o exercito portuguez, a tres leguas de Touro, no momento em que aquelle exercito sahia de um apertado passo entre o rio e a serra. O conde de Loulé acudiu a escaramuçar com os castelhanos, para lhes difficultar a passagem, mas ficou tão gravemente ferido que teve de ser recolhido a Touro.
Affonso V e seu filho prepararam-se então para dar batalha, posto que muita da sua gente, mais avançada na marcha, já tivesse entrado em Touro, e outra houvesse lá ficado de guarda a D. Joanna.
O exercito portuguez dispoz-se d’este modo: na vanguarda, os continuos e familiares da casa do rei, e alguns cavalleiros castelhanos, de que era capitão Ruy Pereira; logo em seguida o conde de Faro D. Affonso com a sua gente e outra que el-rei lhe ordenou; á esquerda da vanguarda o principe D. João com a flor do exercito, seguindo-se a esta ala do principe a do bispo de Evora, D. Garcia de Menezes, com muitos bésteiros e espingardeiros; depois, o rei D. Affonso com a bandeira real, e á mão esquerda o arcebispo de Toledo com a sua gente, logo seguido pela do duque de Guimarães e do conde de Villa Real, commandando a retaguarda D. João de Castro, conde de Monsanto. A peonagem ficara repartida por quatro secções, toda da banda do rei.
Vejamos agora qual a disposição do exercito castelhano.
Na vanguarda, todos os continuos da casa real, e a gente da Galliza, Ulmedo, Medina del Campo, Valhadolid, Salamanca, Ciudad Rodrigo e Samora, sob o commando de D. Henrique, que levava a bandeira real de Castella e Leão. Seguiam-se dez alas, quatro grandes e seis menores.
Notou o principe D. João que uma das seis alas menores do exercito castelhano se destacava como para de refresco acudir ás outras, se fosse necessario. Assim fez tambem, mandando apartar a gente que julgou precisa para o mesmo fim.