Affonso V, depois de ter ordenado as alas do seu exercito, retirou-se, por conselho dos seus, para um oiteiro, d’onde pudesse assistir á batalha, e salvar-se a tempo no caso de desastre.

Veiu então ao acampamento portuguez um rei de armas de D. Fernando desafiar Affonso V. O portuguez respondeu: «Dizei ao principe da Sicilia que é mais tempo de nos encontrarmos do que de mandar desafios.»

A luz do dia principiava a faltar, não só porque o sol tocava o occaso, mas tambem porque o céo se conservava carregado de grossas nuvens. Cahia uma chuva miuda. O scenario d’este drama de odios politicos prestes a desencadearem-se, era lugubre, como se vê.

O principe D. João e D. Pedro de Menezes arremessaram-se impetuosamente contra as alas menores do exercito de Castella. Gonçalo Vaz de Castello-Branco fôra o primeiro portuguez que lograra romper as fileiras castelhanas. O fumo das descargas augmentava a escuridão do ar. Gritos de guerra, como rugidos de leões, atroavam o campo de batalha. Os nossos invocavam S. Jorge e S. Christovão;[43] os castelhanos clamavam por S. Tiago e S. Lazaro. Traidores, aqui está o cardeal! gritava o cardeal de Hespanha, provocando os castelhanos que pelejavam no exercito portuguez. E um d’esses castelhanos era, como elle, um prelado da Egreja, o arcebispo de Toledo.

Rotas pelo esforço dos nossos as fileiras castelhanas, com uma bravura que os proprios chronistas hespanhoes não podem desmentir, os soldados de Fernando e Isabel acolheram-se, fugindo, ao centro do exercito.

D. Affonso V, electrizado pelo enthusiasmo da contenda, lançara-se no combate, seguido pelo conde de Faro. Lafuente diz que D. Fernando investiu com furia contra o sitio onde se ostentava o estandarte real dos portuguezes. Garcia de Rezende diz, porêm que D. Fernando, vendo o desbarato que o principe D. João produzira no exercito castelhano, tratou de acolher-se a Samora. Ruy de Pina faz egual affirmação. Segundo a opinião de Lopes de Mendonça,[44] que de todo o ponto achamos fundada, o consenso dos escriptores portuguezes dá-nos o direito de duvidar da palavra de D. Fernando quando diz em carta dirigida á cidade de Baeza: «E eu com os dictos grandes e cavalleiros que commigo se acharam na batalha, estivemos no campo por espaço de tres ou quatro horas regendo o campo, e assim me volvi com victoria e muita alegria a esta cidade de Samora aonde cheguei á uma depois da meia noite, etc.»

«Mesclaram-se então todas as lanças e todos os corpos, diz Lafuente, pelejando com o encarniçamento de dois povos enfurecidos por uma antiga rivalidade. O pendão das quinas portuguezas foi arrancado pelos esforços do intrepido Pedro Vaz de Sottomayor; valoroso até ao extremo era o alferes Duarte de Almeida que o desfraldava; depois de haver perdido o braço direito, susteve com o esquerdo o pendão, e quando perdeu ambas as mãos apertou-o fortemente entre os dentes até que perdeu a vida, feito este que nos recorda outro só exemplo por nós consignado em nossa historia.»[45]

Pulgar diz que Duarte de Almeida fôra feito prisioneiro e conduzido a Samora. Marianna affirma que a armadura d’este brioso cavalleiro portuguez se via, ainda no seu tempo, na cathedral de Toledo, como trophéo d’aquella insigne façanha. D. Fernando, na carta dirigida á cidade de Baeza, diz, referindo-se ao rei de Portugal: «... foi derrubado e tomado o seu pendão das armas reaes e morto o alferes...»

Vejamos, porêm, o que d’esta façanha de Duarte d’Almeida tem podido apurar a critica dos escriptores portuguezes até á hora em que escrevemos.

Arrancado das mãos do alferes-mór, o estandarte portuguez seria o mais completo testemunho da victoria castelhana, e fluctuando desenrolado afugentaria, de vergonha e desalento, os soldados portuguezes. Mas Duarte d’Almeida perfeitamente comprehendia a grande, a enorme responsabilidade do seu posto. Bem sabia elle que preso áquelle estandarte andava desde Santarem e Ourique, abençoado por Deus, o nome portuguez, e portanto resolveu defender até á ultima gotta de sangue, se tanto fôra preciso, esse precioso deposito que lhe confiara a patria.