Aggridem, cercam, embrenham o valente alferes-mór as lanças castelhanas; elle heroicamente resiste sobrepondo-se a essa cerrada floresta de ferro, que lhe braceja contra o peito os seus farpões mortiferos. Todo o empenho castelhano é arrancar-lhe o estandarte; portanto uma cutilada lhe corta a mão direita. Vale-se da esquerda, e n’ella fecha o seu thesoiro. Nova cutilada lhe decepa a mão esquerda. É um duello titanico, de um contra mil, de um só homem contra um exercito. Duarte d’Almeida não fraqueja, não cede, não cai. Toma o estandante portuguez entre os dentes, e espera, defendendo-se, que lhe arranquem finalmente a vida para que possam arrancar-lhe o estandarte. Multiplicam-se da parte dos castelhanos os golpes, o desespero do inimigo attinge o seu maior grau, é indomavel, feroz. Duarte d’Almeida cai, emfim, vencido pelos golpes repetidos e certeiros, mas, como se não pudesse morrer um portuguez d’aquelles ás mãos de castelhanos, Duarte d’Almeida não é ainda cadaver.

Cahem em peso sobre o alferes-mór os inimigos; entre si disputam qual ha de arrancar-lhe dos dentes, raivosamente cerrados, o estandarte portuguez, que finalmente tremula na mão d’um fidalgo castelhano, de appellido Sottomayor. Este improvisado porta-bandeira do rei castelhano, alegremente corria, seguido d’um troço dos seus, para o lado onde suppunha estar o rei Fernando, a fim de lhe entregar o glorioso trophéo, quando o escudeiro portuguez Gonçalo Pires, com alguns poucos portuguezes, acommette os de Castella, e arrebata a Sottomayor o estandarte das quinas, travando-se entre todos combate que entre Gonçalo Pires e Sottomayor foi singular.

Entretanto Duarte d’Almeida era conduzido semimorto para o acampamento inimigo, d’onde recebeu o primeiro curativo, e d’onde foi mandado para um hospital de Castella.

Regressando á patria, ao cabo de longos mezes, andava escripto nas chronicas que elle não achara em Portugal mais galardão que viver mais pobre do que vivia antes, como dizem, pouco mais ou menos, Duarte Nunes e Damião de Goes, mas o sr. Camillo Castello Branco escreveu modernamente nas Noites d’insomnia ácerca do Decepado, com o proposito de mostrar que elle não acabara tão pobre como se dizia. Conta este erudito escriptor, que Duarte d’Almeida, voltando de Castella, onde fôra muito honrado pelo rei Fernando, se recolhera ao castello de Villarigas, o qual herdara de seu pae Pedro Lourenço d’Almeida, e não era o unico que possuia, pois que tinha outro na quinta chamada de Cavallaria. Chegado a Villarigas, o velho Decepado, que já ia adeantado em annos, encontrou sua mulher D. Maria d’Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Affonso Valente e de D. Leonor de Azevedo, que grandes haveres herdara de sua tia D. Ignez Gomes d’Avellar, e á volta da esposa encontrou tambem o Decepado os seus dois filhos, Affonso e Ruy. Até aqui isto serve apenas para mostrar que Duarte d’Almeida não vivia pobre antes da batalha de Touro, tanto mais que Affonso V, estando em Samora no anno anterior a esta batalha, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para elle e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões. Todavia quer-nos parecer que a ingratidão da patria subsiste, porque Duarte d’Almeida ficou com o que tinha e... com ambas as mãos de menos. Affonso V, esse, se estivesse em Portugal, havel-o-ia galardoado largamente, porque era um mãos rotas, e tanto que o principe D. João, prevendo as prodigalidades de seu pae, obteve d’elle um documento que declarava nullas todas as doações que fizesse durante a guerra de Castella, e que excedessem dez mil réis de renda. O galardão concedido em Portugal a Gonçalo Pires foi o appellido de Bandeira e o brazão de armas com bandeira branca, tendo no centro um leão rompente, de oiro. Mas no Decepado, que provavelmente pouco sobreviveu ao seu regresso, ou em seus filhos, não se fala. Em Castella é que effectivamente elle foi honrado, porque D. Fernando mandou pendurar na cathedral de Toledo as armas de que havia sido despojado Duarte d’Almeida, e em Samora foi tratado, quando prisioneiro, com grandissima distincção.[46]

O sr. A. X. Rodrigues Cordeiro, que, a proposito de uma visita recente á cathedral de Toledo, escreveu um artigo sobre Duarte d’Almeida, dá noticia de existir n’aquelle templo uma armadura completa de cavalleiro, que se presume ser a do Decepado, e uma bandeira, que alguns dizem ser a portugueza, mas que se não vê, por estar resguardada n’uma bolsa de tela.

O illustre escriptor, e nosso amigo, não duvida de que a armadura seja a de Duarte d’Almeida, mas refuta que a bandeira seja a portugueza, visto que Gonçalo Pires a arrancou heroicamente das mãos de Sottomayor, como testemunham os nossos chronistas. A bandeira, que se não póde reconhecer por estar encerrada na bolsa, será porventura a que os castelhanos tomaram aos moiros na batalha do Salado.[47]

Havia mais de uma hora que o combate durava, sem que a victoria parecesse pender para qualquer dos dois exercitos, quando a ala esquerda do castelhano correu a reforçar a hoste real. Então a retaguarda do exercito portuguez, em que pelejava o arcebispo de Toledo, correspondendo ao movimento do inimigo, correu a auxiliar Affonso V, engrossando a fileira para aparar o embate. A peleja reaccendeu-se fogosa. Mas o choque da fuzilaria e da cavallaria castelhanas foram de tal ordem, que desconcertaram as fileiras portuguezas.

Affonso V quiz, verdadeiramente allucinado, lançar-se contra o grosso do exercito castelhano, onde certamente haveria encontrado a morte. Não lh’o consentiram, porem, alguns fidalgos.

A noite tinha, entretanto, cahido tenebrosa, como estivera o dia. E, receosos de que alguma força castelhana lhes cortasse a retirada, os fidalgos que acompanhavam o rei, partiram para Castro Nunho.

Muitos cavalleiros portuguezes tentaram atravessar o Douro para acolher-se a Touro. Talvez cerca de mil e duzentos morreram afogados n’essa empresa, em que o desanimo devia quebrantar-lhes as forças.