O principe D. João, reunida toda a gente que poude, deixou-se ficar no campo até ao romper d’alva, tendo mandado accender fogueiras e soar os clarins. O seu desejo era empenhar-se n’uma nova batalha. Mas o exercito castelhano retirara para Samora, juntamente com o rei D. Fernando, ou depois do rei. Assim, por conselho do arcebispo de Toledo, o principe, que desejara demorar-se tres dias no campo, reduziu os tres dias a tres horas, «por comparação que trouxe (o arcebispo) da resurreição de Nosso Senhor, diz Ruy de Pina, que foi depois da morte tres dias não todos inteiros.»

É, porem, certo, que a batalha de Touro não tivera uma importancia militar de tal ordem, que por si só pudesse resolver definitivamente tão grave pendencia internacional. «A batalha de Touro, portanto, escreve Lopes de Mendonça, em que ambos os adversarios se proclamaram vencedores, parecendo á primeira vista ter sido decisiva para a questão, não foi senão um successo de guerra, bastante duvidoso para qualquer dos partidos, e que pouco significaria para o desenlace d’esta grave lucta, se a causa de D. Affonso V não estivesse já perdida pela defecção successiva dos seus partidarios, pelas repugnancias nacionaes contra o dominio portuguez, e pela influencia que Isabel de dia para dia adquiria entre a burguezia, e as classes populares.»

É certo que deserções importantes tinham aggravado a situação de Affonso V. O marquez de Vilhena, como Affonso, recusara o conselho de penetrar com o exercito portuguez até Madrid; tratou, julgando perdida a causa da Beltraneja, de bemquistar-se com Fernando e Isabel, mediante a condição de lhe serem restituidas suas terras e rendas. Os duques de Arévalo passaram-se tambem para o partido de Isabel. Só permanecera fiel a Portugal o arcebispo de Toledo que, depois da refrega, se recolhera aos seus estados, que tinham sido invadidos pelos exercitos de Castella.

Lafuente faz sentir que as condições do exercito portuguez na batalha de Touro lhe eram sobremodo favoraveis.

Esta asserção é apenas um echo do que o proprio D. Fernando escrevera na sua carta á cidade de Baeza: «... e como quer que muitos cavalleiros dos que commigo estavam eram de parecer que eu não devia dar batalha pelas muitas vantagens que o dicto meu adversario tinha para ella, assim porque na verdade era mais gente em numero que a que commigo estava, como porque as minhas gentes iam cansadas e a mór parte da peonage que commigo sahiu fôra deixada no caminho pela grande pressa que levavamos para alcançal-o, e por não levar commigo artilheria alguma, e era quasi sol posto e estava tão proxima a cidade de Touro d’onde elle e os seus se podiam recolher sem muito damno, uma vez que fossem vencidos...»

É preciso contrapôr, porem, a estas considerações do rei de Castella o que D. João de Portugal escreveu ao concelho de Evora sobre o mesmo assumpto: «... e depois de todos assim de uma parte como da outra serem em campo, ainda que os contrarios tivessem vantagem, por terem as costas em serra e por terem mais gente de pé, porquanto a sua (do rei D. Affonso seu pae) era já toda em a cidade de Touro, e assim mesmo alguma de cavallo que fôra adeante com a fardage, pelo qual os contrarios tinham de vantagem bem sete ou oito lanças...»

Assim, pois, acabou a batalha de Touro em que bem podiam ter succumbido o rei e o principe de Portugal. Se tal houvesse acontecido, quem póde calcular as complicações politicas em que se veria lançado o paiz, dadas as represalias de Castella, e a menoridade do neto de Affonso V?


VII
O RATO NAS MÃOS DO GATO