Dom Fernando retirou, como dissemos, para Samora, e avisou do resultado da batalha sua mulher, que estava em Tordesilhas. D. Isabel, recebendo a noticia, ordenou que se fizesse uma procissão, em acção de graças, á egreja de S. Paulo, indo ella propria a pé, e descalça. Mais tarde, Fernando e Isabel fundaram, pelo mesmo motivo, o mosteiro de San Juan de los Reyes, obra grandiosa, diz Lafuente, que ainda hoje se admira, apesar das deteriorações que tem soffrido.
É para notar a circumstancia de que ambos os belligerantes se julgassem vencedores, e agradecessem a Deus o triumpho alcançado.
O principe D. João, de Portugal, depois de acclamado rei, ordenou ao concelho de Evora que em cada anno, nos primeiros dias do mez de março, se fizesse uma solenne procissão para commemorar a batalha de Touro. Diz o documento: «... e querendo nós ácerca desto nom menos fazer grato e reconhecer a Nosso Senhor o que em nossos dias e presenças nos fez de mercês com a batalha que houvemos em o reyno de Castella entre Touro e Samora; ordenamos e mandamos que daqui em deante em louvor de Nosso Senhor, e da Bemaventurada Virgem Maria sua Madre, e de S. Jorge e de S. Christovam que o dicto dia traziamos por nosso padroeiro e nome, que em cada um anno nos dois dias de março em que foi a dicta batalha, a Cleresia toda dessa cidade façaaes solenne procissão...» etc.[48]
Frei Francisco Brandão diz que na batalha de Touro pertencera a Portugal a gloria do vencimento, e a Castella o util da herança. É uma engenhosa maneira de conciliar as coisas.
Em Lisboa tambem se fazia uma procissão para commemorar a supposta victoria de Touro. D. João II mandou suspender a procissão quando em 1491 seu filho casou com a filha de Fernando e Isabel, porque, por esse casamento, todalas coisas passadas ouverom fim, diz o proprio D. João II.
É verdade que o voto da procissão podia até certo ponto explicar-se, segundo as idéas do tempo, pelo facto de não ter soffrido damno algum a pessoa do rei Affonso, de quem por algumas horas se ignorou o destino na cidade de Touro, depois de finda a batalha. «Sendo já passado bom pedaço do dia (seguinte), o principe chegou a Touro com a bandeira real despregada, a o qual, como foi conhecido, o duque (de Guimarães) e o conde (de Villa Real) vieram abrir as portas da cidade, e foi recebido n’ella assim da rainha D. Joanna como de todas as mais pessoas com assaz tristeza, por até então não terem novas nenhumas do que era feito d’el-rei D. Affonso, e principalmente o duque de Guimarães que, depois do principe ser em seu aposento, perante elle, e de todos os que com elle estavam, depenando as barbas, e os cabellos da cabeça, fez grandes prantos e lamentações, perguntando a os que fugiram da batalha, com muitas lagrimas, por el-rei D. Affonso, dizendo-lhes que mal se poderiam chamar cavalleiros, pois não sabiam dar conta nem recado de seu rei, senhor e capitão, no que se passou um bom pedaço, sem o ninguem poder acalentar, salvo o principe (postoque tivesse mór dor e tristeza que nenhum dos da companhia), que com palavras prudentes fez tanto que o duque cessou de se queixar mais do que o já tinha feito.»[49]
Mas, quando estavam todos n’esta incerteza, chegou recado que o rei mandava de Castro-Nunho ao principe. Logo, como a noticia foi recebida, repicaram os sinos na cidade, soando trombetas e atabales, que toda a perda da batalha se teve por nada em comparação de ser salva a pessoa d’el-rei, diz Goes, phrase que até certo ponto póde explicar a origem da procissão de Evora.
Escreve Lafuente que o principe D. João recolheu a Portugal com quatrocentos ginetes, «acompanhado de sua prima D. Joanna.» Os chronistas portuguezes Ruy de Pina e Damião de Goes, parecendo este ultimo muito bem informado, não dizem o mesmo. Segundo elles, o principe partiu na semana santa de Touro para Castro Nunho, passando o rio em uma barca, e os cavallos e bestas a nado, no sitio chamado Rico Vau. Na Paschoa estava D. João em Miranda do Douro. D’ahi foi á Guarda, onde se avistou com sua mulher D. Leonor. Descançou na Guarda alguns dias, sahindo depois a correr todos os logares da fronteira, provendo ao que lhe parecia necessario a fim de prevenir qualquer invasão.