D. Fernando resolveu pôr cerco a Cantalapiedra, onde estavam ainda muitos fidalgos portuguezes. E D. Affonso, que se conservava em Touro, sabendo que D. Isabel havia de passar de Madrigal para Medina, preparou-lhe uma cilada, aforrado com seis mil lanças, mas porque o duque de Bragança com outros, antes de tempo se descobriram, os castelhanos, conhecendo a cilada, recolheram precipitadamente a Madrigal.
Abhorrecido por esta nova contrariedade, Affonso V partiu para Portugal no principio do mez de junho de 1476, acompanhado pela Beltraneja. Affonso V seguiu o itinerario de seu filho. Sahiu de Touro para Castro Nunho, e veio passar a festa do Corpo de Deus a Miranda do Douro. Depois ordenou que D. Joanna partisse para a Guarda, acompanhada do bispo de Vizeu e do conde de Villa Real. Da Guarda, por ordem do rei, passou D. Joanna para Coimbra, onde o principe D. João a visitou, e de Coimbra passou finalmente para Abrantes, ao tempo que já o principe ia em caminho do Porto, onde Affonso V estava fazendo preparativos de viagem para França.
Julgara Affonso V que, indo em pessoa pedir auxilio a Luiz XI, lograria attrahil-o á sua causa mais efficazmente do que a diplomacia pudera fazel-o. Do Porto, enviou a França Pedro de Sousa a notificar a sua resolução ao rei Luiz, e, despedido o emissario, veio D. Affonso embarcar em Lisboa no mez de agosto. A armada que o devia acompanhar compunha-se de dezeseis navios, com dois mil e duzentos homens. O rei ia a bordo de uma urca preparada para recebel-o.
Arribou a Lagos a armada. Ahi, um celebre corsario francez d’esse tempo, de nome Cullom, já antigo conhecido de Portugal por serviços prestados em Ceuta, cumprimentou Affonso V, de quem foi recebido graciosamente. De Lagos velejou a armada para Ceuta, e de Ceuta para França, com destino a Marselha; chegada porem a Collioure, onde arribara por causa do tempo, despediu-a Affonso V. Em Collioure, um capitão do exercito francez sahira ao encontro do rei de Portugal para lhe dar as boas vindas em nome de Luiz XI.
De Collioure jornadeou Affonso V para Perpignan, onde com grandes honras foi acolhido pelas auctoridades locaes. De Perpignan passou por Narbonne, Montpellier, Besiers e Nimes, seguindo d’aqui para Leon, vindo encontral-o ao caminho o duque de Bourbon. D. Affonso não entrou em Leon por causa da peste, e logo em Roanne recebeu outro enviado do rei que lhe dava as boas vindas. Depois dirigiu-se a Bruges, onde descançou alguns dias, e novos enviados de Luiz XI foram encarregados de lhe fazer companhia. O logar da entrevista dos dois monarchas devia ser Tours, e para ahi se dirigiu Affonso V, mas Luiz XI, pretextando uma romaria, deixou varios cortezãos encarregados de receber o rei portuguez. Visivelmente Luiz XI queria preparar effeitos scenicos, fazer esperada a sua presença, tomar-se desejado.
Quando Affonso soube que Luiz XI se approximava, quiz sahir á rua, ou pelo menos á escada, para o receber, mas o rei de França mandara adeante dois fidalgos para impedir que Affonso V levasse tão longe a sua cortezia. N’este facto revela-se perfeitamente o caracter de Luiz XI, assim como o globo enorme do sol se espelha ás vezes n’uma pequena gotta d’agua. Luiz XI fizera-se esperar; agora, mostrava-se requintadamente cortez, quasi humilde. N’este traço está effectivamente concretizado o caracter de Luiz XI, tal como elle resalta do perfil d’este rei traçado pelos historiadores, e até pelos romancistas. O seu reinado foi um combate de todos os dias, como diz Augustin Thierry,[50] pela causa da unidade do poder e do nivelamento social, mas combate sustentado á maneira dos selvagens, pela astucia e pela crueldade. D’ahi vem, observa o historiador, a mistura de interesse e de repugnancia que excita em nós este caracter tão extranhamente original.
Finalmente os dois soberanos encontraram-se a meio de uma sala. A mise-en-scène d’esta entrevista é curiosa. «El-rei de França, diz Ruy de Pina, vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d’ella tirado um chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada d’armas muito comprida, com a guarnição de ferro limada, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas ante-talhadas de muitas côres. E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçavam inclinando os joelhos muito baixos.»
Como se vê, sobre ser original é pouco magnificente a toilette do rei de França. Accentua-se n’ella um tom de humildade, que convinha agora a esse grande diplomata do seculo XV, para attrahir a si a victima imprevidente.
Depois de conversarem algum tempo, retiraram-se os dois soberanos a uma camara, onde Luiz XI indicou a Affonso V o que sem perda de tempo elle devia fazer. Era, a seu juizo, o seguinte:
1.º Que o monarcha portuguez iria pedir ao duque de Borgonha, que então estava em guerra com o de Lorena, que o ajudasse contra Castella, ou que ao menos se compromettesse a não atacar o rei de França, que era pelo duque de Lorena, emquanto Luiz XI guerreasse a favor do rei de Portugal.