A inimizade de Luiz XI com o duque de Borgonha era antiga, e violenta. Este duque havia despojado dos seus Estados o de Lorena, a quem Luiz XI auxiliava secretamente contra o inimigo commum.

«Quando D. Affonso V, escreve Pinheiro Chagas, intentava ingenuamente reconciliar estes dois adversarios implacaveis, sitiara o duque de Borgonha a cidade de Nancy, capital da Lorena, que se declarara pelo seu legitimo senhor. Luiz XI ria-se dans sa barbe da tentativa que o pobre D. Affonso V ia emprehender, e esperava talvez que illudisse tambem algum tanto Carlos de Borgonha, ao passo que as suas tropas caminhavam secretamente com as do duque de Lorena, e que elle esperava, como o corvo sinistro, os primeiros rumores d’uma derrota, para cahir sobre a presa do campo de batalha, e cevar-se n’ella. Carlos de Borgonha, tinha só uma filha, e Luiz esperava, com boas razões, apanhar-lhe a herança.»[51]

2.º Que Affonso V obteria do papa a dispensa apostolica precisa para casar com sua sobrinha D. Joanna, a fim de que elle pudesse ir em sua ajuda com menos cargo, diz Ruy de Pina. Era esta mais uma astucia de Luiz XI, porque elle bem sabia que Fernando e Isabel creariam em Roma grandes difficuldades junto do Papa. Era um meio dilatorio, no fundo; um expediente palliativo.

A este tempo, já Luiz XI conhecia perfeitamente a credulidade cavalleirosa de Affonso V. Tomara-lhe o pulso, como se diz em linguagem vulgar. Começara então a fazer-lhe promessas e offerecimentos. Disse-lhe que os castelhanos gostavam ás vezes de vender as fortalezas, e que sempre lhe parecera melhor compral-as do que tomal-as. Que contasse com o dinheiro que precisasse. E como fosse noite, e quando os dois sahiram da camara já as tochas estivessem accesas, Luiz XI, imaginando proporcionar a Affonso V uma noite bem passada, que o attrahisse mais para o prazer do que para a questão de Castella, mandou pedir a Affonso V que acceitasse a quantia de cincoenta mil escudos de oiro para convidar qualquer gentil dama, como era usança e cortezia de seu reino.

D. Affonso V recusou este offerecimento. Elle tinha tido uma educação austera, sob a direcção de seu tio D. Pedro; havia estimado tanto D. Isabel de Lencastre, sua mulher, que ella poude sempre resistir ás malquerenças que tinha na côrte; elle era o guerreiro d’Africa, o soldado, o homem forte; não estava costumado ao prazer, ás noites de sensualidade que tanto embriagavam Luiz XI. Portanto recusara.

A fim de tratar da dispensação para o casamento de Affonso V com sua sobrinha D. Joanna, partiu para Roma uma embaixada composta de tres representantes do rei de Portugal, os quaes iam animados da melhor fé, e de dois do rei de França, os quaes naturalmente levavam instrucções particulares para o pontifice.

Ao mesmo tempo, Affonso V partia para Nancy, a fim de se avistar com o duque de Borgonha, que, como já dissemos, estava em guerra com o de Lorena, e acampado na baixa Allemanha.

«E antes da sua partida, escreve Ruy de Pina, el-rei de França lhe disse que pela pouca seguridade que tinha do duque de Borgonha, por ser muito orgulhoso, duvidava que, tomando a cidade de Nancy, sobre que estava, e destruindo o duque de Lorena, por seguir novidades quereria entrar por França, e que com receios d’isto, pelos segurar, tinha sua gente na frontaria, que daria causa a elle lhe não poder dar tanta ajuda, como sem isso faria. Porem, que se por seu meio d’el-rei D. Affonso elles ambos ficassem verdadeiros amigos, e se liassem por casamentos dos filhos, como o duque por todas as razões devia querer, elle em sua ajuda poria a coroa de França com todo o seu poder, e que el-rei devia requerer o duque, que fosse com elle em pessoa; porque era bom capitão, e tinha muita gente e singular intelligencia, e que sendo el-rei D. Affonso d’estas amizades meio e segurador, cada um d’elles teria receio de os per si quebrar, pelo não ter por contrario, com os quaes muito cedo se faria pacifico rei de Castella

Sobre o modo por que Affonso V foi recebido pelo conde de Borgonha, filho de Philippe, o Bom, apartam-se as opiniões dos historiadores.

Affonso V chegou ao acampamento a 29 de dezembro de 1476.