A situação de Carlos de Borgonha era a esse tempo quasi insustentavel; o desanimo lavrava no seu exercito, e a traição do conde de Campo Basso, um perfido napolitano, preparava-lhe um laço. Não obstante, Carlos recebeu de boa sombra o rei de Portugal, ao qual descreveu com vivas côres o caracter astucioso de Luiz XI. Citou factos em abono d’estas revelações, e contou a Affonso V como Luiz XI, aconselhando o pobre rei portuguez a dirigir-se a Nancy, enviara logo atraz d’elle tropas de soccorro ao duque de Lorena. Carlos de Borgonha mostrou-se altivamente corajoso, dizendo que não se arrecearia de dar batalha a Luiz XI só com um pagem; mas, para dar uma prova de affectuosa consideração a Affonso V, não duvidava entrar em negociações de paz.

Tal é a narração de Schœffer, e dos escriptores portuguezes. Mas tanto Barante como Philippe de Commines dão outra versão, aliás muito mais consentanea ao caracter de Carlos de Borgonha. Dizem estes chronistas que elle respondera a Affonso V que sem demora se dirigisse a Pont-á-Mousson para defender a cidade contra o duque de Lorena, o qual chegava da Suissa com o seu exercito, emquanto elle Carlos de Borgonha esperaria o duque deante de Nancy para o combater.

Affonso V, surprehendido com a resposta, balbuciara desculpas: que não tinha armadura, nem trouxera comsigo nenhum dos seus homens de armas.

Desanimado, Affonso V partiu para Pariz.

Entretanto chegava o duque de Lorena, e Carlos de Borgonha quiz dar-lhe combate em campo raso. A traição do napolitano Basso vingara, e Carlos cahira morto, com grande jubilo dos francezes, jubilo que contrastava com a tristeza de Affonso V.

E era fundada a tristeza do pobre rei portuguez.

Luiz XI, sabendo da morte de Carlos de Borgonha, tratou de apossar-se dos dominios que lhe pertenceram, de realizar a annexação por meio de emissarios que para esse fim enviara ás cidades borgonhezas, e foi installar-se em Arras, onde Affonso V lhe mandara pedir uma entrevista, que foi concedida.

Segundo o costume, não escacearam promessas nos labios de Luiz XI, mas essas promessas eram todas mentirosas. Luiz XI importava-se então mais com os despojos de Carlos de Borgonha do que com as pretensões de Affonso V á coroa de Castella.

Vimos que um dos assumptos tratados entre Luiz XI e Affonso V foram as negociações a que devia proceder-se para obter em Roma a dispensa indispensavel á consummação do matrimonio entre o rei de Portugal e sua sobrinha. De feito, uma embaixada partiu para Roma, sendo composta do conde de Penamacôr, de João Teixeira e Diogo de Saldanha, por parte de Portugal, e de mr. de Saint-Vailler e do governador de Grenoble, por parte da França.

Partiram juntos, e por terra, os embaixadores, acompanhados de grande sequito. O papa recebeu-os com muitas honras.