Era natural, como dissemos, que os embaixadores de Luiz XI levassem instrucções secretas para o pontifice. Ruy de Pina diz que o auxilio dado por Luiz XI em Roma a Affonso V, n’esta pretensão, se houve sempre por muito duvidoso.

Fernando e Isabel contrariavam fortemente, junto da santa sé, a concessão da dispensa pedida. O papa tergiversava com dilações, mas quando viu desembaraçado o poder de Luiz XI pela morte de Carlos de Borgonha, decidiu-se a conceder a dispensa em condições mais que muito duvidosas para Affonso V.

Permittia o pontifice que Affonso V pudesse casar com qualquer donzella que lhe fosse achegada em qualquer grau lateral de consanguinidade ou affinidade, exceptuando o primeiro grau. Esquivava-se o papa artificiosamente a nomear D. Joanna, para não affirmar opinião sobre a sua legitimidade. Mas não parava aqui a subtileza do pontifice; declarara que concedia a licença apenas por comprazer com o rei de França, e que o de Portugal não poderia aproveital-a sem que o rei de França fosse ouvido como arbitro.

Apertado mais tarde por Fernando e Isabel, que viram com maus olhos a concessão de uma tal dispensa, o papa desculpou-se dizendo que n’aquelles termos não a poderia negar a qualquer popular obscuro que a solicitasse; que não deu a Affonso V o tratamento de rei de Castella, como elle desejava; que não nomeou D. Joanna e que, porisso mesmo, a dispensa fôra concedida em termos vagos; que havia declarado não querer que resultasse d’ella prejuizo para terceiro, o qual se entendia ser o rei de Castella, mas que, visto ser assim mesmo contestada, revogaria a licença que concedera, o que fez por bulla patente enviada a D. Fernando no principio do mez de dezembro de 1478.[52]

Depois da entrevista de Arras, Affonso começou a comprehender que não tinha sido mais que um simples joguete nas mãos de Luiz XI. De Arras, dirigiu-se para Honfleur, onde demorou todo o mez de setembro, entregue a uma violenta lucta moral, acabando por querer alienar todas as grandezas mundanas, e passar a Jerusalem com proposito feito de nunca mais voltar a Portugal. Todo esse tempo gastou-o Affonso V entregando-se a exercicios religiosos e escrevendo apontamentos intimos, que cuidadosamente fechava n’um cofre de que tinha a chave, e que se julgava serem uma especie de codicillo, de appenso ao testamento que havia feito.

Finalmente, n’uma manhã de setembro de 1477, o rei sahiu a cavallo, como costumava, acompanhado por Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, seis moços de camara, e dois moços de esporas, ordenando ao seu capellão que o fosse esperar na estrada, em logar determinado, onde effectivamente se encontraram.

Chegados ahi, Affonso V deu ordem a um dos moços d’esporas para que retrocedesse a Honfleur, e entregasse, aos que n’essa localidade tinham ficado, a chave do cofre, para que o abrissem, e lessem o que deixara escripto.

Do que no cofre se continha dá noticia Ruy de Pina:

«... deixava uma carta para el-rei de França com remoques dissimulados, reportados á sua desventura, em que tambem lhe dava conta do fundamento que tivera para sua partida, que era servir a Deus; porque assim lhe fizera voto de o fazer depois da morte da rainha, sua mulher, sendo o principe seu filho em edade para reger seus reinos como era, pedindo-lhe amparo, favor e ajuda para os seus, que em seus reinos ficavam. E outra carta para o principe seu filho, em que lhe dava uma triste conta de sua viagem, encommendando-lhe e mandando-lhe por sua benção, que logo se alevantasse e intitulasse... rei. E outra d’esta substancia para todos os do reino, que como o proprio e verdadeiro rei obedecessem ao principe. E outra para os seus que ahi deixara, que estivessem á obediencia e ordenança do conde de Faro, com que todos foram tão tristes, e fizeram tão dolorosos prantos como a razão ensina, que em terras tão extranhas e em tanto desamparo, e o rei tão amado devia ser.»

As cartas dirigidas para Portugal foram logo enviadas ao principe por Antão de Faria, e em virtude d’ellas se fez D. João acclamar rei de Portugal, em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.