Quando os portuguezes que tinham ficado em Honfleur receberam aquellas cartas, já estavam suspeitosos da demora de Affonso V, não obstante o seu habito de sahir a cavallo todas as manhãs.
Luiz XI tinha encarregado mr. de Lebret, fidalgo francez, de acompanhar Affonso V e de responder pela sua pessoa. Quando mr. de Lebret soube que o rei de Portugal havia desapparecido, mandou logo emissarios a procural-o, accusando ao mesmo tempo os portuguezes de incuria na guarda do seu soberano. Foi n’uma pequena aldeia da costa, uma villagem, diz Ruy de Pina, que poude ser encontrado Affonso V, o qual, para não ser descoberto, vivia em commum com os poucos criados que o seguiam. O gentilhomem, que primeiro logrou encontral-o, e que se chamava Robinet-le-Bœuf, acordou Affonso V, que estava dormindo, a fim de melhor poder reconhecel-o, do que pediu desculpa ao rei de Portugal. Surprehendido, Affonso V não tratou de dissimular por mais tempo a sua identidade, e Robinet-le-Bœuf fez reunir immediatamente toda a gente do logar, a fim de que ficasse guardando o rei, expedindo emissarios com aviso a Luiz XI, aos portuguezes que tinham ficado em Honfleur, e a mr. de Lebret. Dos portuguezes, o primeiro que appareceu foi o conde de Penamacôr, que já andava em busca do rei. Affonso V mostrou-se a principio teimoso em não renunciar á sua viagem á Terra Santa. O conde de Penamacôr mandou porisso chamar o conde de Faro, e D. Alvaro seu irmão, a fim de que viessem demovel-o, o que effectivamente conseguiram.
Affonso V teve pejo de voltar a Honfleur, e portanto embarcou na angra de Hogue, com destino a Portugal. Alguns dos navios que o acompanhavam, não puderam aguentar a conserva, e chegaram primeiro, pelo que o principe D. João, já acclamado rei, teve noticia da chegada de seu pae. Diz-se que D. João II andava passeando á beira do Tejo, junto do paço de Santos, com o duque de Bragança D. Fernando e com D. Jorge da Costa, mais tarde cardeal de Alpedrinha, quando soube que seu pae havia chegado a Cascaes, e que perguntara aos seus companheiros de passeio o que havia de fazer n’aquelle lance. O duque respondeu que o dever de D. João II era receber Affonso V como seu rei e seu pae. Então D. João apanhou do chão uma pequena pedra, que atirou ao Tejo, e que foi por algum tempo cortando a agua. D. Jorge da Costa disse, inclinando-se ao ouvido do duque: «Aquella pedra não me ha de acertar a mim na cabeça.» E no dia seguinte partiu para Roma, onde conseguiu chegar a grandes honras, e ter subida importancia.
Comprehende-se, no caracter forte e austero de D. João II este movimento de indignação perante a fraqueza, a versatilidade de seu pae, que cedia vergonhosamente á astucia de Luiz XI. Mas comprehende-se tambem que, passada essa primeira impressão, fosse receber seu pae a Oeiras, e reverentemente lhe entregasse o titulo de rei, de que já estava de posse. Os caracteres como o de D. João II teem uma profunda comprehensão do seu dever, embora, para o cumprir, hajam de dilacerar-se a si mesmos.
Por sua parte, Affonso V, envergonhado das circumstancias em que se achava, e das fluctuações do seu proprio espirito, queria que o filho conservasse o titulo de rei, guardando elle para si o dos Algarves e das conquistas de Africa; mas o principe não lh’o consentiu.
Depois de estar em Lisboa algum tempo, Affonso V retirou-se para Montemór-o-Novo, e d’ahi para Evora, e é notavel que, depois de tantos desenganos, lhe tornasse a passar pelo espirito a idéa de continuar devéras a guerra com Castella, que estava limitada a algumas incursões, e de realizar definitivamente o seu casamento com D. Joanna.
O principe contrariou-lhe ardentemente estes pianos, sobretudo o do casamento. Era já tarde, entendia o principe; o que elle lamentava era que seu pae não tivesse acceitado as primeiras propostas de Castella, em tempo de Henrique IV, desposando D. Affonso a infanta D. Isabel, e elle a infanta D. Joanna.[53]
D. João, durante a ausencia de seu pae, havia sustentado a animosidade com Castella, e mandara gente sua a descercar a villa de Alegrete, que tinha sido sitiada por Affonso de Monroy, assim como mandara auxilio a Touro e a Castro Nunho, que se conservavam fieis a D. Affonso V, o qual, de França, dera ordem aos governadores d’essas fortalezas castelhanas para se renderem. Elles vieram effectivamente para Portugal, por escaparem á vingança de Fernando e Isabel, e da coroa portugueza receberam auxilio e protecção. Todavia, o principe D. João comprehendia perfeitamente que Portugal, sobretudo pelo pessimo estado das suas finanças, não se achava habilitado a continuar uma guerra longa e aberta com Castella.
O alcaide-mór da villa de Moura, Lopo Vaz de Castello Branco, quiz revoltar-se contra o rei de Portugal, porque no paiz lavrava um fermento de indisciplina, que era estimulado pelas proprias fluctuações do poder real, confiado a Affonso V. Foi mais tarde preciso o caracter de ferro de D. João II para repor as coisas no seu antigo estado, e para arcar peito a peito com quasi toda a nobreza do paiz. Lopo Vaz de Castello Branco pagou com a vida a ousadia do seu procedimento. Era mais uma manifestação da austeridade de caracter do principe, que não deixava nunca de punir a rebellião dos seus inimigos.
N’esta desgraçada pendencia com Castella, ainda Portugal teve de figurar mais uma vez. Foi o caso que a condessa de Medellim, que seguia a causa da princeza D. Joanna, fôra cercada nas suas fortalezas pelo mestre de S. Tiago de Castella, e mandara pedir auxilio a Affonso V. Effectivamente Portugal enviou-lhe soccorro, indo por capitão-mór da pequena expedição o bispo de Evora, D. Garcia de Menezes. O mestre de S. Tiago deu batalha ao bispo junto de Mérida, sendo o bispo vencido, ferido e preso, pois que a desproporção das forças era enorme entre os dois exercitos. O de Castella era muito superior. A guarda do bispo foi confiada a um cavalleiro castelhano, que se deixou corromper, pelo que D. Garcia de Menezes, podendo fugir, se recolheu a Medellim, onde, com os destroços da expedição, se conservou ainda muito tempo cercado, até ao tratado de paz.