De baldão em baldão, fluctuando n’um mar de incertezas, havendo atravessado a existencia sob o peso de uma predestinação fatal, D. Joanna, a Beltraneja, via-se, finalmente, obrigada a tomar uma resolução definitiva, a escolher um de dois meios, como diz Ruy de Pina, que para ella eram extremos de mortal sentimento.

Por muitas vezes parecera approximar-se do throno; por outras tantas tivera que afastar-se d’elle. Em Castella fôra rainha durante o tempo que vivem as rosas. Nunca lhe deixaram ter coração para amar, ser livre como a mais obscura camponeza de qualquer dos dois reinos que a sua coroa ephemera poderia ter abrangido. E todavia fôra esposa promettida de muitos noivos, nenhum certamente escolhido com o assentimento do seu coração. De um d’elles, seu tio Affonso V, chegara a compartir esperanças e desalentos. Sem embargo, D. Joanna bem sabia pela licção da historia, que a primeira mulher de seu tio arrastara uma vida profundamente alanceada de intimos pesares. Sabia ou devia saber que D. Isabel de Lencastre tivera por thalamo o leito de espinhos onde era obrigada a repoisar ao lado d’aquelle a quem seu pae devêra a morte, e a quem os amigos de seu pae deveram perseguição. Não era por que Affonso V tivesse uma alma incapaz de comprehender as finas delicadezas do amor. Não. Elle amara sua prima Isabel, e chegara mesmo a esquecer que ella era filha do infeliz infante D. Pedro, a victima de Alfarrubeira. Conta-se que D. Isabel, denunciando os primeiros symptomas da maternidade, sentira estalar a esmeralda do seu annel de donzella, que trazia no dedo. Lastimou-se a desventurosa princeza, certamente por haver gerado uma creança, cujo avô fora assassinado por tolerancia do pae. Mas Affonso V acudiu a tranquillizal-a com palavras de carinho, fazendo-lhe ver que o nascimento de um filho valia bem uma pedra preciosa. E foi, sob esta impressão affectuosa, que D. Affonso permittira que o cadaver de seu tio fosse removido para o tumulo de familia, na egreja da Batalha. Affonso não era, pois, um homem incapaz de sentir, e de amar. Mas a Beltraneja não poderia de certo amal-o; iria para elle levada pela força das circumstancias, para não perder um throno que Affonso V ambicionava ganhar.

Esse casamento, a realizar-se, seria talvez um porto de abrigo depois de tantos naufragios; uma taboa de salvação nos mares aparcelados da vida. E, não obstante, partia-se agora essa fragil taboa que era toda a esperança da pobre Beltraneja. A politica, o espectro que tão cruelmente a perseguia, inclinava-se-lhe agora ao ouvido para dizer-lhe, como Hamlet a Ophelia: «Entra n’um convento; faze-te freira, e depressa...»

Mas a Beltraneja havia sido rainha ainda que por pouco tempo, fôra rainha sem reino e sem throno, não podia comtudo esquecer-se facilmente de que o fôra: uma esperança, quando é violentamente arrancada, traz sempre comsigo, pegado ás raizes, um pedaço do coração. Porisso, a pobre princeza chorou ao despir os brocados e sedas que até ahi envergara, ao ver cahir a seus pés os cabellos por onde outr’ora as perolas serpejaram em espiras phantasiosas. O seu coração era moço de mais para se resignar, abatido, quando no convento de Santa Clara, de Santarem, o amortalharam no habito monastico.

D. Joanna chorava, choravam com ella os seus criados e familiares.

No convento de Santarem ainda hoje, diz frei Manuel da Esperança, se vê uma casa, que foi sua, onde se rezam matinas dos dias menos solennes, a qual por este respeito é chamada o corinho.[55]

O principe D. João, endurecido pelos calculos ambiciosos da politica, olhava mais para o futuro do que para as tranças da Beltraneja, que cahiam despedaçadas no chão. Era que, segundo o tratado feito com Castella, seu filho devia desposar a filha mais velha de Fernando e Isabel. Assim, poderia chegar talvez ao mesmo ideal, a unificação de duas coroas, por caminhos mais suaves.

«O principe, que de se cumprirem as capitulações, diz Duarte Nunes, tinha seus particulares interesses, e o casamento para seu filho, e porventura a successão dos reinos de Castella, como depois pudera succeder, se o juizo divino o não atalhara...»[56]

Que importava que fosse preciso, para realizar esse desideratum, esmagar o coração de uma pobre mulher?