O principe D. João, de Portugal, sorria porventura, por entre dentes, da credulidade dos embaixadores hespanhoes, que julgavam ser muralha inexpugnavel a parede de um mosteiro, e prisões inquebrantaveis as grades d’elle.
Nas conversações particulares, que mantinha com os seus intimos, D. Joanna deixava-se enternecer facilmente pelas lagrimas d’elles: a mulher, revoltada contra o sacrificio, apparecia então. Ruy de Pina não o dissimula quando noticía que foi precisa a intervenção do principe D. João para que a profissão da Beltraneja se realizasse, como realizou, a 15 de novembro de 1480, em Santa Clara, de Coimbra.
Consummara-se o sacrificio. D. Joanna recebeu o véo preto das mãos de frei Diogo de Abrantes.
Em muitos olhos brilhava compassivo pranto; só D. João não chorava.[57]
Affonso V, doente de melancholia, não assistira; não tivera forças para tanto. Não tivera energia para resistir ás imposições de seu filho; mas faltara-lhe tambem a coragem para assistir á profissão de sua sobrinha, que elle proprio victimara.
Logo em Coimbra, diz Damião de Goes na Chronica do principe D. João, esteve para morrer de pura melancholia. Escapara por então, mas fizera-se intratavel, misanthropo. Queria recolher-se ao mosteiro do Varatojo, e professar. Assim acabaria por um duplo voto religioso este triste drama do seu projectado casamento com a Beltraneja. Mas, antes de realizar um tal plano, precisava avistar-se com o filho, que estava em Beja: deviam tratar n’essa conferencia da convocação de côrtes geraes, para que ellas reconhecessem D. João como rei. Affonso V partiu, pois, de Coimbra para Beja no verão de 1481. Na entrevista, ficou resolvido que as côrtes se convocassem para Estremoz, porque Lisboa e Evora estavam assoladas pela peste. Tratado este negocio, D. Affonso V partiu, no principio de agosto, de Beja para Cintra onde, solitario como desejaria viver, devia esperar pela reunião das côrtes.
Em Cintra, o rei foi acommettido de febres. Pouco era preciso para o matar no estado de abatimento e desgosto em que se encontrava. O principe acudiu logo a Cintra, mas os medicos desenganaram-n’o: o rei morria. D. Affonso acceitou a morte como uma redempção: fez ao filho algumas recommendações, deu-lhe conselhos. Pediu-lhe que protegesse a orfandade da Beltraneja. E morreu, a 8 d’esse mez, com quarenta e nove annos de edade.
Acabara-se finalmente a tortura que lhe rasgara o coração a lentas punhaladas.
Poucos dias depois do fallecimento de Affonso V, nascia o filho que D. Anna de Mendonça tivera do principe herdeiro D. João. D. Anna de Mendonça, mulher muito fidalga e moça formosa de mui nobre geração, diz Garcia de Rezende, servira como dama de honor da Beltraneja, andara na sua casa. Ao passo que D. Joanna, casada e virgem, via fechada a dobra do seu leito de noiva, jámais occupado, uma das suas damas de companhia rendia-se ás seducções do principe D. João, menos disposto a guardar para si a abstinencia de prazeres que exigia de sua prima. Era justamente na roda da noiva mallograda de seu pae que o principe D. João ia procurar e encontrar uma amante, com a qual corria a emboscar-se nas moitas floridas de Cernache do Bom Jardim. Singulares ironias tem ás vezes o destino!