Como claramente se póde ver do teor das menagens, a sua redacção bastava para revelar as intenções do rei, e o duque de Bragança, querendo protestar, mostra, como toda a outra nobreza, não conhecer D. João II: julga-o fraco, parece-lhe que se acobardará perante a resistencia.

O duque precisou dos titulos das suas doações para documentar o protesto, e mandou buscal-os a Villa Viçosa, pelo veador da sua fazenda, João Affonso, dando-lhe a chave de um cofre que continha todos os papeis de segredo.

João Affonso declinou esta grave commissão n’um filho seu, em quem muito confiava. Na occasião em que o filho do veador andava procurando no cofre, appareceu por acaso na sala Lopo de Figueiredo, escrivão da fazenda do duque, o qual, a pedido do rapaz, o ajudou a procurar os papeis. Depararam-se-lhe, porem, entre elles algumas cartas e instrucções de Castella, e para os reis de Castella, com emendas e correcções feitas pela lettra do duque. Lopo de Figueiredo poude escondel-os, mettendo-os na manga do gibão. Em casa leu-os vagarosamente, e reconheceu que se não havia enganado, pelo que immediatamente correu a Evora, a mostral-os ao rei, que d’elles tomou conhecimento, dando-os a copiar a Antão de Faria, e mandando-os pôr no cofre, onde estavam, por Lopo de Figueiredo.

Eis aqui como o acaso, ou o mysterio de Deus, como diz Garcia de Rezende, poz nas mãos de D. João II o fio de uma intriga, que era como que o vendaval que devia atiçar o fogo da lucta travada entre elle e a nobreza de Portugal.

D. João II tinha um duplo motivo para, segundo o seu ponto de vista, combater o duque de Bragança: em primeiro logar, atacava um dos maiores e mais altivos potentados que faziam sombra á coroa real; em segundo logar, desde que o duque se oppuzera a que Affonso V passasse a Castella, via n’elle um parcial da causa, agora triumphante, de Fernando e Isabel. E depois lembraram a D. João II as palavras duras do duque quando, depois da batalha de Touro, se não sabia do destino de Affonso V.

As cartas que o acaso trouxera ás mãos do rei, vieram fortalecel-o na antiga suspeita. Desde esse momento, D. João II não pensou senão em liquidar estas contas antigas. Espirito forte, caminhou resolutamente para o seu ideal de vingança, umas vezes mostrando-se severo e desconfiado com o duque de Bragança, outras vezes fingindo acreditar nos seus protestos de obediencia e fidelidade.

Mas, intimamente, D. João II julgava indispensavel prevenir-se com uma arma poderosa para contraminar a connivencia do duque de Bragança com Castella: essa arma era sua prima, D. Joanna, a Beltraneja ou, como agora lhe chamavam os castelhanos, la Monja.

Pois bem. Sem hesitar um momento, D. João ordenou que abrissem a sua prima as portas do mosteiro de Coimbra, e que ella vivesse no seculo com a ostentação que ao seu nascimento era devida.

E assim foi que, freira professa havia dois annos, D. Joanna, joguete malfadado das ambições dos outros, voltou de novo ao mundo onde a felicidade parecia apostada em mostrar-se-lhe tão esquiva como outr’ora, quando ainda o véo preto lhe não cingia a bella cabeça juvenil.