Qualquer que fosse o anno em que o infante partiu, sabemos que já estava na Allemanha em 1419, quando o imperador Sigismundo lhe concedeu a marka ou ducado fronteiriço de Treviso.

Foi justamente n'esse anno ou pouco antes que Sigismundo, já rei da Hungria, herdou de Wenceslau a corôa da Bohemia, e se achou a braços com os Hussitas e os Turcos.

Duarte Nunes, o auctor dos Retratos dos varoes e donas[[25]], e outros escriptores dão noticia de ter Alvaro Vaz de Almada combatido pelo imperador Sigismundo contra os Turcos.{35}

Não custa acredital-o. Sabendo que o seu grande amigo, o infante D. Pedro, estava na Allemanha, decerto se daria pressa em avistar-se com elle, indo immediatamente ao seu encontro. Como não era homem para estar parado nem quieto, continuaria a ser alli «irmão de armas» do infante, combatendo por algum tempo a seu lado.

Um escriptor moderno affirma este facto, sem hesitações: «Tambem Alvaro Vaz de Almada militou nos exercitos do imperador Sigismundo da Allemanha, e ahi se encontrou com o infante D. Pedro, estreitando os laços de amizade que a elle o uniam, desde que fôra armado cavalleiro»[[26]].{36}

É mais natural que Alvaro Vaz se encontrasse com o infante D. Pedro na Allemanha do que na Inglaterra, porque D. Pedro parece ter estado n'este paiz pouco antes de recolher a Portugal em 1428, visto que a concessão da Jarreteira, com que foi agraciado por Henrique VI, tem a data de 22 de abril de 1427, e Alvaro Vaz já em 1423 estava em Lisboa.

Ha um documento d'esta época, pelo qual Alvaro Vaz de Almada foi nomeado capitão-mór da armada de D. João I.

É o seguinte:

«D. João, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nós querendo fazer graça e mercê a Alvaro Vasques de Almada, cavalleiro nosso vassallo, por serviços que d'elle recebemos e entendemos a receber ao deante: Temos por bem e damol-o por nosso capitão-mór da nossa frota pela guisa que o era Gonçalo Tenreiro{37} em tempo d'el-rei D. Fernando, nosso irmão, a quem Deus perdoe, e por a guisa que o foi Affonso Furtado em nosso tempo, e porem mandamos aos patrões, alcaides, arraes e pintitaes, comitres e bésteiros, galeotes, marcantes, marinheiros e a todos os outros, a que esta carta fôr mostrada, que o hajam por nosso capitão-mór, como dito é, e lhe obedeçam e façam todas as cousas que lhes elle mandar fazer por nosso serviço, e segundo a seu officio pertence, e que possa com elles fazer justiça, ou em cada um d'elles, assim como a nós fariamos outrosim se presente estivessemos, e mandamos a todas as nossas justiças que cumpram suas cartas e mandados, e lhe ajudem a fazer e cumprir direito e justiça em todas as cousas que lhe elle assim disser e mandar da nossa parte quando pertence a seu officio, senão sejam certos quaesquer que o contrario d'isto fizerem, que lh'o extranharemos gravemente{38} nos corpos e haveres como aquelles que não cumprem mandado de seu rei e senhor: em testemunho d'isto lhe mandamos dar esta nossa carta, dada em Cintra a vinte e tres dias de junho. El-rei o mandou. Martim Vasques a fez, éra do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos vinte tres»[[27]].

Este documento, publicado nas Provas da Historia Genealogica, põe um limite preciso e seguro ás viagens de Alvaro Vaz. Por elle vêmos que o bom capitão recolheu{39} ao reino muito primeiro que o seu amigo, infante D. Pedro, isto é, cinco annos antes.