D. João I quiz certamente dar, com esta nomeação, uma indemnisação á familia Almada: honrar o filho, visto que não pudéra perdoar ao pai.
Até ao anno da desgraçada expedição de Tanger (1437) não teve Alvaro Vaz de Almada, na sua qualidade de capitão-mór da frota, motivo para se assignalar por feitos de armas.
Mas em Tanger o vamos encontrar derramando o sangue pela patria, e combatendo com o valor de que já havia dado sobejas provas em Ceuta ao serviço de D. João I, e na Inglaterra ao serviço de Henrique V.
O infante D. Henrique, tendo chegado a Tanger, estabelece arraiaes n'um outeiro que ficava contra o cabo d'Espartel, desviando-se das instrucções que a este respeito{40} lhe havia dado seu irmão o rei D. Duarte.
«E em se começando a gente de alojar, sahiu uma voz, com um rumor sem certidão, que as portas da cidade estavam abertas e os mouros fugiam; e a este alvoroço acudiram muitos de cavallo contra a cidade, para entrarem, e commetteram o feito mui ardidamente, e se metteram entre o muro e a barreira, e combateram as portas tão rija e ousadamente, que de tres juntas que eram, romperam duas; e a terceira, que se diz o Postigo de Guyrer, commetteram com fogo: e, por ser forrada de ferro e sobrevir a noite, não foi entrada; e tambem porque os mouros a defenderam mui bravamente. E o conde de Arrayolos, por mandado do infante, foi recolher a gente que, alli e na porta do castello e nas outras da cidade, estava em combates repetidos: em que morreram muitos cavallos e alguns christãos, e sahiram muitos{41} feridos: entre os quaes foi o conde de Arrayolos, de uma setta por uma perna, e o capitão Alvaro Vaz d'outra por um braço»[[28]].
É o primeiro ferimento recebido, ao serviço de Portugal, por Alvaro Vaz. Qualquer que fosse, porém, a sua gravidade, de novo o vemos a combater esforçadamente logo no primeiro combate regular que o infante D. Henrique ordenou contra os mouros.
«Mas o infante D. Henrique, vendo que o commettimento por aquella vez não succedia como esperava, e que sua gente recebia dos mouros muito damno, a fez recolher: de que ficaram até vinte christãos mortos e quinhentos feridos: e mandou ficar as bombardas e engenhos em{42} seus alojamentos juntos com o muro d'onde tiravam, cuja guarda encommendou ao recebel-a ao capitão Alvaro Vaz e a outros, que, por estarem afastadas do arraial e pegadas ao muro, receberam dos inimigos muita affronta e trabalho: e elles, na defensão d'ellas e offensão que aos mouros faziam, deram de si claro testemunho de valentes cavalleiros»[[29]].
No segundo combate contra os mouros, o capitão Alvaro Vaz continua a assignalar-se:
«E n'este mesmo dia era fóra D. Alvaro de Castro, e o capitão, e Gonçalo Rodrigues de Sousa, e Fernam Lopes d'Azevedo, com setenta de cavallo: e, topando com quinhentos mouros de cavallaria e muitos de pé, pelejaram com elles e, a seu salvo,{43} lhe mataram quarenta, e tornaram victoriosos a recolher-se com o conde (de Arrayolos) e com os outros, que dos mouros vinham bem perseguidos»[[30]].
Mas é sobretudo no tumultuoso embarque das tropas portuguezas, na retirada de Tanger, que o capitão Alvaro Vaz, de par com o marechal Vasco Fernandes Coutinho, que depois foi feito conde de Marialva, pratica um acto de extremada cavallaria.