Oiçamos o chronista:
«... o infante com muito resguardo fez recolher a gente, e encommendou ao marechal, e ao capitão Alvaro Vaz, que com alguma somma de bésteiros ficassem sobre o atalhamento do palanque, em um arrife que ahi sobre o mar se fazia, d'onde contrariassem os mouros por maneira, que{44} os christãos embarcassem com mór segurança, e depois se recolhessem com sua ventura o melhor que podessem; e certamente assim como este encargo era de grande perigo a estes dois nobres homens, assim n'elle como esfoçados, se aproveitaram de muita honra e boa fama que n'elle ganharam, e não sómente n'esta, mas em todas as outras affrontas n'este feito passadas, elles por sua bondade d'armas, e grandeza de coração, foram havidos por especiaes capitães, e notaveis cavalleiros. A gente miuda, com desejo de salvar as vidas de que foram desesperados, embarcavam com grande desordenança a que se não podia prover, cá se lançavam ao mar soltamente, não esguardando se o batel era do navio, em que vieram, se de outro algum, e muitos d'elles por fazerem os mareantes em sua salvação mais attentos e diligentes tentavam-n'os com cubiça, offerecendo-lhes logo nas mãos, alguma{45} provesa que ainda escapara; e isto começou de dar grande desaviamento á embarcação, e causar algum damno; porque a todos os ministros do mar venceu tanto esta aborrecivel cubiça, que suspendiam a entrada dos que alguma cousa lhe não peitavam, e os dispunham por isso a grande perigo, do que el-rei houve, depois, sabendo-o, gran desprazer, e segundo a mostrança de seu desejo, certamente este erro não ficára sem grave punição, se d'elle pudéra achar os certos auctores. O marechal, e o capitão, como a gente que guardavam viram embarcada, começaram de se recolher na melhor ordenança que puderam, mas os mouros, por acabarem de mostrar sua falsa concordia, e verdadeira imisade, como os viram mover para embarcar, ordenaram dos pavezes que achavam no palanque, uma forte pavezada, com que tão rijamente os commetteram, que muitos dos christãos, especialmente os{46} bésteiros, não podendo soffrer um duvidoso perigo, tomaram para suas vidas outro maior, e mais certo, lançando-se sem algum tento ao mar, onde morreriam até quarenta. E tanto era o primor da honra n'estes dois cavalleiros, que em chegando ao batel, que para seu recolhimento os esperava, e trazendo com a perseguição dos mouros a morte nas costas, á entrada d'elles ambos se rogaram, affrontando um ao outro a primeira entrada, procurando com palavras de muita cortezia e grande esforço, por cada um ficar por derradeiro em guarda do outro; e porem com todos estes revezes, ao domingo pela manhã eram já todos á frota recolhidos»[[31]].
Este lance da biographia de Alvaro Vaz de Almada é, com effeito, de uma galhardia{47} cavalheirosa, que inflamma o espirito de quem n'elle attenta, apesar de sermos chegados a um tempo em que estas proezas guerreiras têm já todo o caracter de factos longinquos e semi-phantasticos.
Á volta de Tanger, Alvaro Vaz torna-se verdadeiramente notavel pela superioridade com que sabe disfarçar a sua dôr pelo desastre soffrido.
D. Duarte estava em Carnide, quando «... chegaram em tanto a Lisboa dos que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como finalmente passára, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas por saber, que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se n'aquella aldeia, para vêr e agasalhar os que vinham do cêrco,{48} dos quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e com palavras a desaventura conformes, se lhe mostravam, e d'elles fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que el-rei recebia publica dôr e tristeza; mas a estes foi mui contrario, o nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar, que como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muito, e da honra por merecimentos d'armas não ganhasse pouca, como chegou a Lisboa, antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de alegria, chegou a Carnide, onde el-rei andava{49} passeiando fóra das casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui graciosamente, e louvou muito sua ida n'aquella maneira, que não sómente lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente, estimando em nada o captiveiro do infante seu irmão, que era um homem só e mortal, em que haviam muitos remedios, em respeito da grande fama que n'aquelle feito em seu nome se ganhára, aconselhando-lhe mais o repique e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar d'elles que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu coração recebia, e por isso e por seus bons merecimentos lhe prometteu muita mercê, e grande acrescentamento;{50} e sem duvida assim o fizera, se sua antecipada morte o não tolhera»[[32]].
Ferdinand Denis, referindo-se a esta passagem da vida de Alvaro Vaz, escreve: «Mostrou-se principalmente corajoso cavalleiro durante o cêrco de Tanger, onde ficou prisioneiro o infante D. Fernando, que morreu em Fez; se bem que quando voltou ao reino, o bom rei D. Duarte sahiu para o receber pessoalmente, a pé, fóra de Carnide, onde estava. Fez-lhe taes favores e mercês, como até então ninguem tinha recebido. Foi d'elle que o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique d'Aragão diziam que haviam encontrado em Portugal bom pão e bom capitão»[[33]].{51}
Cumpre advertir que, segundo o testimunho do chronista Pina, o rei D. Duarte não teve tempo de fazer a Alvaro Vaz as mercês que desejava, e que as maiores que o famoso capitão recebeu não provieram de Portugal, mas de Inglaterra.
Muitos escriptores suppozeram que Alvaro Vaz de Almada fôra feito conde de Avranches pelo rei de França, e cavalleiro da ordem da Jarreteira pelo de Inglaterra; mas não padece a menor duvida que ambas estas graças lhe foram concedidas pelo monarcha inglez, Henrique VI, quando, como rei de França, senhoreava o ducado de Normandia.
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Dois annos depois do desastre de Tanger, principia a agitar-se em Portugal a{52} famosa questão da regencia, que havia de ter um tragico desfecho no combate de Alfarrobeira.