Em agosto de 1439 a rainha D. Leonor passou-se de Santo Antonio do Tojal, onde estava, para Sacavem, e o rei menino, Affonso V, tornou para Lisboa, onde estava o infante D. Pedro.
Este infante fez reunir em sua casa as pessoas de maior confiança, e entre ellas o «seu grande amigo Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar»[[34]], ás quaes se queixou da pequena parte que do governo lhe coubera nas côrtes, e communicou a resolução de abandonar por completo os negocios do Estado, retirando-se para as suas terras.
N'essa reunião particular, de caracter{53} intimo, distinguiu-se Alvaro Vaz aconselhando o infante a que, se lhe não entregassem logo todo o poder da regencia, se recolhesse aos seus dominios, «porque perdia muito de sua auctoridade e estimação andando na côrte com tão pouca auctoridade»[[35]].
Era este um meio, habilmente procurado por Alvaro Vaz de Almada, para estimular o animo do povo, e apressar os acontecimentos no interesse do infante.
A rainha, por sua parte, tomava represalias irritantes contra os amigos e partidarios de D. Pedro.
Uma d'ellas foi despedir do seu serviço a irmã de Alvaro Vaz de Almada, por desconfiar que ella communicava ao irmão o que se passava na côrte.{54}
Este e outros actos, como, por exemplo, a mercê que D. Leonor fizera a Nuno Martins da Silveira, aio do rei, dos varejos a que os mercadores de Lisboa eram obrigados de sete em sete annos, irritaram profundamente os partidarios do infante, entre os quaes eram numerosos os homens do povo.
Foram-se de parte a parte exaltando os animos, a ponto que a rainha julgou conveniente á sua segurança transferir-se de Sacavem para Alemquer.
N'este lance da narrativa encontram-se Ruy de Pina e Gaspar Landim, se bem que ambos elles se equivoquem, quando se referem a Alvaro Vaz de Almada, em attribuir a mercê do condado de Avranches ao rei de França e a da Jarreteira ao de Inglaterra, quando foram feitas, como sabemos, pelo mesmo rei, que ao mesmo tempo se intitulava rei de Inglaterra e de França.{55}
«Os officiaes de Lisboa,—diz Ruy de Pina,—vendo esta mudança da rainha fizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas Homem, cidadão velho, entendido e de grave representação fez uma falla com largo recontamento, cuja substancia foi avisar a cidade dos males e perigos, que por as mudanças presentes se lhe apparelhavam; e como para terem por cabeça alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario elegerem e tomarem alferes, apontando logo o capitão Alvaro Vaz de Almada, que da cidade fôra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dignos merecimentos e louvores, que d'elle com verdade recontou; no que todos consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo chamar por quanto era fóra da cidade; e em chegando á Ribeira, sendo já sabida a determinação sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade e assim acompanhado com grande{56} honra foi levado á camara, onde por os vereadores com certas cerimonias e largas palavras de grande seu louvor e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas condições; e elle a recebeu com palavras cortezes, e discretas, e de grande esforço; porque era cavalleiro que n'este reino e fóra d'elle por experiencias mostrou, que isto e muito mais de louvor havia n'elle, cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde de Abranches, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro da ordem da Jarreteira, de que principes christãos, e pessoas de grande merecimento são confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua linhagem e fidalguia mereceu ser como foi capitão-mór do mar»[[36]].{57}