Ouçamos agora, na passagem parallela a esta, o testimunho de Gaspar de Landim:
«E tanto que em Lisboa se soube a mudança da rainha (de Sacavem para Alemquer), como não havia acto seu que não parecesse mal aos cidadãos e povo d'ella, se ajuntaram com os vereadores, e entre elles o costumado Vicente Egas como mais contrario das cousas da Rainha, e favorecedor das do Infante lhe fez uma pratica mui larga toda em seu favor d'elle, em qual encareceu grandemente os males e perigos que dizia estarem-lhes apparelhados áquella cidade e a todo o reino por ordem da Rainha, pelo que era necessario elegerem um capitão que lhe servisse de cabeça, e os defendesse, a quem obedecessem, para o qual effeito, pois que o Infante D. Pedro estava ausente (em Camarate), ninguem o podia melhor fazer que o capitão Alvaro Vaz de Almada,{58} grande amigo e familiar do Infante, e para que não houvesse duvida na eleição d'elle recontou grandes feitos seus, e de seu pai João Vaz de Almada, encarecendo sobre modo seu valor e merecimentos; o qual logo de commum consentimento foi nomeado e eleito por defensor da cidade, capitão e alferes-mór, e para haver esta eleição effeito bastou saber que era mui contrario ás cousas da Rainha e suas cousas, e mui affecto ás do Infante; o qual foi logo mandado chamar a uma quinta onde estava, e em entrando na cidade, chegando á Ribeira se juntou todo o povo e cidadãos com elle para o acompanhar, e d'ahi o levaram á camara com grande alvoroço e muitas exclamações de libertador e defensor d'aquella cidade, e entrando na camara lhe foi entregue a bandeira com muitas condições e declarações todas em favor do Infante D. Pedro, e contrarias á Rainha; com as quaes elle a recebeu,{59} e com palavras significadoras de grande agradecimento prometteu tudo cumprir.
«Os cidadaos e povo muito satisfeitos, confiados e a seu parecer seguros de todos os medos e destruições que sobre si fingiam haverem de vir, e lh'o faziam crêr, e por taes se deram com a eleição do seu defensor.
«Era Alvaro Vaz de Almada cavalleiro que assim n'este reino, como em outros, tinha feito grandes cousas por seu esforço em que cabiam aquelles e outros maiores cargos, ainda que foi notado de temerario e arrogante, e como tal deu muita cousa, e foi a principal parte da casa do infante D. Pedro, de sua honra e vida; e por seu esforço foi feito por el-rei de França conde de Abranches, e em Inglaterra por valorosos feitos lhe foi dada a honra da Garrotea, da qual n'aquelle tempo se honraram muitos principes, e em Portugal depois de{60} tornado a elle foi feito por el-rei D. Duarte capitão-mór do mar».
Aqui temos Alvaro Vaz de Almada lançado na accesa lucta travada entre o infante e a rainha, e vel-o-hemos acompanhar sempre D. Pedro, até á morte, com aquella cega dedicação, que já era antiga, porque datava de Ceuta.
O povo de Lisboa, poucos dias depois da eleição de Alvaro Vaz, acclamára o infante D. Pedro como unico governador do reino, n'um acto solemne realisado na egreja de S. Domingos.
N'este momento, Alvaro Vaz é o braço direito do infante e o querido do povo, o homem escolhido para todas as missões importantes.
Assim, foi designado para ir solicitar do infante D. João que viesse a Lisboa, onde a sua presença se reputava necessaria.
O emissario logrou convencer o infante,{61} que veio logo, hospedando-se na casa da Moeda[[37]].
Novamente se tornou a reunir o povo, agora nos paços do concelho, fallando por essa occasião o dr. Affonso Mangancha e Alvaro Vaz.