Ruy de Pina dá-nos a summula do discurso do famoso Capitão: «encommendaram logo ao Capitão que désse sobre o caso sua voz, que a deu com cautelas e fundamentos de homem prudente, e mui avisado, em que concluiu mais além, que era crime e aleijão elrei ser creado em{62} poder de mulheres; e não menos erro reger a rainha, não sem muitos merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser sempre servida e acatada: e que o infante D. Pedro devia reger»[[38]].
Como sabemos, o povo havia entregado a D. Alvaro a defeza e guarda da cidade de Lisboa. O infante D. Pedro confirmou, por um diploma official, a escolha que o povo fizera, nomeando D. Alvaro alcaide-mór do castello, investindo-o officialmente nas funcções, que já exercia, de defensor dos moradores de Lisboa.
«Dom Affonso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que vendo nós e considerando os muitos e estremados serviços que o capitão-mór Alvaro Vasques de Almada, Rico Homem e do nosso conselho,{63} fez a ElRei meu Senhor e Pai e a ElRei Dom João, meu Avô, e isso mesmo a nós e ao diante entendemos receber, e os muitos trabalhos e perigos em que foi assim fóra dos nossos reinos como em elles por honra d'elles, e querendo-lhe galardoar e conhecer, como todo bom Rei e theudo, aquelles que bem e lealmente servem, conhecendo sua grande lealdade, porém de nosso motu proprio, livre vontade, certa sciencia, poder absoluto, temos por bem e fazemol-o nosso alcaide mór do nosso castello da nossa mui nobre e leal cidade de Lisboa, pelo que nos fez preito e menagem uma, duas e tres vezes de nós em elle receber irado e pagado no alto e no baixo, segundo mais cumpridamente é, contheudo na fórma de sua menagem, a qual é escripta no livro das menagens que anda em a nossa camara é assignada por elle. E porém mandamos a todos os fidalgos, cavalleiros, escudeiros, corregedores,{64} juizes, justiças, conselho e homens bons da dita cidade, que d'aqui em diante o hajam por nosso alcaide em o dito castello e outro nenhum não, não embargando que o até aqui tivesse D. Affonso, o qual nos praz nem queremos que o mais seja pelo assim entendermos por nosso serviço, aos quaes mandamos que lhe obedeçam assim como alcaide e saiam com elle e sem elle cada vez que por elle ou da sua parte forem requeridos em aquillo que a seu officio pertencer para se fazer direito e justiça. Outrosim queremos que tenha e haja de nós todas as rendas e direitos que á dita alcaideria pertencem segundo é contheudo em nossa carta, que d'isso tem, e os possa arrecadar, tirar e arrendar por si e por seus procuradores e homens como a elle mais prouver. E em testimunho d'isso lhe mandamos dar esta nossa carta. Dante (?) em Santarem cinco dias de abril por auctoridade do Senhor Infante Dom Pedro,{65} tutor e curador do dito Senhor Rei, Regedor defensor por elle de seus Reinos e Senhorios. Martins Gil a fez, anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta[[39]].
Mas Alvaro Vaz chegava para tudo, e o infante encarregou-o de ir tomar o castello da Ameeira, que estava por D. Leonor. A esse tempo a rainha havia-se entrincheirado no Crato.
D. Alvaro deu-se pressa em partir para ir desempenhar esta nova commissão.
Vejamos o que diz Ruy de Pina; prefiro, sempre que seja isso possivel, empregar a linguagem das chronicas, porque tem um sabor antigo, que se conforma{66} melhor com o assumpto, tambem antigo, do que a nossa linguagem actual.
«O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Ameeira, como disse, era encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé, que era muita e mui bem concertada, e assim com os artilheiros e provisões, que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e singular ordenança, fazendo-o assim como homem que o vira, e passára em outros reinos já muitas vezes. E tambem folgou de o ordenar assim por dar a entender n'este pequeno cerco, o que faria em outros maiores se lh'os encommendassem».
O resultado da Jornada da Ameeira foi satisfatorio, como todos os partidarios do infante esperavam, visto que a incumbencia tinha sido confiada ao valoroso Capitão.
O castello rendeu-se pouco depois de D. Alvaro lhe ter posto cerco.{67}
O joven Affonso V, que estava então em Alemquer, tanto tinha ouvido fallar de Alvaro Vaz de Almada, que quiz vêl-o por força quando elle passava para a Ameeira. A sua imaginação de creança estava exaltada pela fama d'esse cavalleiro portentoso, que já tinha uma lenda de heroicidade, com que regressára do estrangeiro, e que em Portugal continuava a glorifical-o.