Referindo-se ao pequeno rei, diz Ruy de Pina: «desejou muito de vêr o Capitão, e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e sentindo-lhe Alvaro Gonçalves de Athayde, seu aio, este vivo orgulho e desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse: mas por não errar em seu serviço e estado indo de proposito vêr uma sua cousa tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse a caça, ao campo d'entre Castanheira e Villa Nova, e que ali como de recontro veria o{68} Capitão, e a gente que então havia de passar. E a outro dia andando alli el-rei com seus galgos e gaviões, assomou o Capitão, e sabendo já que el-rei o queria vêr apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua pessoa com seus pagens armados se concertou com grande perfeição. Porque n'aquelle acto de armas, por seu braço e por experimentadas ardidezas passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor, e tanto que foi atravez d'onde o rei olhava, se apartou só da gente armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a pé foi beijar as mãos a el-rei, e lhe disse:—«Senhor, assim como eu sou o primeiro que Vossa Senhoria vê n'estes habitos, assim, prazendo a Deus, não serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviço, e por defensão de vossos reinos». El-rei folgou muito de o vêr, e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e{69} mór acolhimento, do que de sua pouca idade se esperava, e assim se despediu o Capitão, e seguiu sua viagem até a Ameeira, que logo cercou e combateu até que a tomou[[40]].

Um homem de tamanho vulto, como era D. Alvaro Vaz de Almada, por força havia de ter inimigos, especialmente n'uma época em que os interesses politicos da sociedade portugueza estavam profundamente divididos em dous campos oppostos.

Uma carta regia, que se encontra no archivo da camara municipal de Lisboa e é datada de 12 de maio de 1440, dá conhecimento de não ter sido permittido que Alvaro Vaz de Almada, alcaide-mór, intentasse acção, para se desaggravar do que contra a sua pessoa tinham dito e feito alguns{70} officiaes da cidade; e recommenda-lhes que reciprocamente usassem d'aquella boa maneira e amizade, com que sempre se haviam tratado[[41]].

A reacção, por parte dos sequazes da rainha, decerto procuraria amesquinhar e desprestigiar D. Alvaro, a alma do movimento em favor do infante.

Parece que, entre outras accusações, lhe fizeram tambem a de haver impedido a entrada de um navio carregado de trigo, que era preciso ao consumo publico.

Mas, não obstante este e outros meios de reacção, a causa da rainha naufragava: D. Leonor fugira para Castella, segundo parece, no dia 29 de dezembro de 1440.

N'este momento desapparece-nos Alvaro{71} Vaz de Almada do theatro dos acontecimentos, sem que os chronistas nos dêem a chave do enygma.

Apenas se sabe, por uma phrase vaga de Ruy de Pina, e por outra phrase, não menos vaga, do proprio infante D. Pedro, que elle estivera em Ceuta.

Julgaria D. Alvaro,—insaciavel de correr perigos e aventuras,—que a sua presença não era já precisa em Portugal ao infante D. Pedro, cuja causa estava ganha? Dar-se-ia em Ceuta algum acontecimento, que fizesse com que o infante, como regente do reino, entendesse ser necessario mandar alli o seu mais seguro e dedicado amigo?

Ficou em Ceuta D. Alvaro ou iria tambem ao estrangeiro, tentar novos feitos de armas, hypothese a que se inclina o collaborador do Diccionario popular?{72}