Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem, antes de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do exercito. Já sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que prova que era muito novo então.

Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera o nome do conde de Avranches quando descreve{135} o episodio dos doze de Inglaterra; e que Camões se enganou tambem dizendo que Antão Vasques de Almada foi depois conde de Avranches.

Vamos agora á lenda dos doze.

Será acaso nos Lusiadas que pela primeira vez apparece noticia d'esta lenda?

Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no anno de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora o Palmeirim de Inglaterra, por Francisco de Moraes, e no capitulo CLXIII da segunda parte d'esta obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da lenda dos Doze.

Mas o Palmeirim de Inglaterra será uma obra original, uma traducção fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á infanta D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert{136} de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva julga, porém, que Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes introduziu cousas de sua lavra.

No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra o Memorial das proezas da segunda tavola redonda, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no capitulo XLVII se lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o tempo dos romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João de Boa Memoria sabemos que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da tavola redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze cavalleiros portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado com outros tantos inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas do duque de Alencastro».{137}

Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença de serem treze os cavalleiros em vez de doze.

O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que nos vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito viva a fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. João I, seria Jorge Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.

Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dos Retratos dos varões e donas, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra, collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por amor da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. João I com D. Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as relações de Portugal com a Inglaterra[[74]],{138} e foi depois da batalha de Aljubarrota (1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre nós. Mas Fernam Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere ao caso.