Prosigamos. Mariz, nos Dialogos da varia historia, publicados em 1594, referindo-se a uma relação antiga,{139} Chronica antigua hujus temporis, publíca uma narrativa do feito dos Doze, occorrido, segundo elle, no reinado de D. João I. Cita, entre os Doze, apenas quatro, mencionando o nome de um que se chamava Alvaro de Almada.
Faria e Sousa, commentando os Lusiadas, em 1639, tambem se refere a um papel antiguo, em que toscamente se historiava o episodio dos Doze.
Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla de uma ordem de cavallaria, a ordem da Dama Branca, que foi organisada para defeza das damas ultrajadas, plusieurs dames et damoiselles, veufves et autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes[[75]], e publíca o texto das cartas de armas{140} pelas quaes treze cavalleiros francezes, messire Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França, Bouciquaut, seu irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères, Chambrillac, Castelbayac, Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut, Colleville e Torsay, se comprometteram a defender as damas no anno da graça de 1399.
Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes, porque a sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por outros no de 1396. O duque de Lancaster, que para este feito cavalleiresco teria pedido o auxilio de D. João I, falleceu em 1399.
Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e, portanto, a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer apenas que esta lenda se tinha generalisado na Europa, querendo cada paiz aproprial-a a cavalleiros seus.{141}
O catalogo completo dos Doze portuguezes appareceu pela primeira vez no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro, Desafio dos Doze de Inglaterra, publicado em 1732[[76]].
Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam: Alvaro de Almada, o Justador; Alvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço; Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz Gonçalves Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da Silva, Ruy Mendes Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João Fernandes Pacheco e Vasco Annes Côrte Real.
Este catalogo tem para nós muito pouco{142} valor. Os nossos antigos chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, por exemplo, que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis, chronologicamente, com a época dos Doze de Inglaterra[[77]]. Além d'isto, a vaidade das familias mais illustres de Portugal não deixaria de collaborar no catalogo, fazendo supprimir uns nomes para os substituir pelos de representantes seus.
Quanto ao primeiro cavalleiro do catalogo de Védouro, Alvaro de Almada, o Justador, não deixa de inspirar certa desconfiança a coincidencia de existirem na mesma época dois homens do mesmo nome e do mesmo vulto cavalheiresco.
Não será acaso Alvaro de Almada, o Justador, um desdobramento da individualidade de Alvaro de Almada, o conde de{143} Avranches, por errada repetição de algum códice, nobiliario principalmente?