Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações.
Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob o regimen liberal, veio surprehender Herculano, queremos crêl-o, no parlamento. Ella não tinha passado ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras, impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos depois foi que Alexandre Herculano escreveu a celebre carta a Almeida Garrett, e ha n'essa carta alguns periodos significativos, referentes á discussão de 1841. Diz Herculano a Garrett:
«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse{33} seguir as ideias de v. ex.ª declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de mim qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me. Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.»
Estamos persuadidos de que o debate parlamentar ácerca da propriedade litteraria encontrára Alexandre Herculano sem opinião definida sobre esse assumpto. Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos de que o sistema nervoso de um homem de lettras é ás vezes susceptivel, e que os proprios factos da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica. Herculano, o irritado contradictor da propriedade litteraria, reconheceu-a nas transacções honestas que fizera com o seu editor, reconheceu-a no seu proprio testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.
Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. São o claro-escuro das suas concepções geniaes.
Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára cada vez mais avesso ás promptas soluções dos negocios publicos, poeta da solidão, mas sempre poeta, Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra a vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia que se deve sentir por um paiz onde a nostalgia nos acommetteu e pungiu.
Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo circulo de Cintra. Este circulo, segundo o decreto eleitoral de 1852, dava dois deputados. Alexandre Herculano saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco de Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente se notabilisára no parlamento como apagador encartado. A lenda ridicularisava-o. Disse-se que Herculano não quizera ir á camara de braço dado com um apagador satirisado. Não acceitamos esta versão. É{34} certo que elle renunciou o logar de deputado, e que a razão adduzida na sua Carta aos eleitores de Cintra, agora reimpressa no II volume dos Opusculos, é pouco menos de futil.
Essa razão era—que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu representante individuo que lhe não pertença.
Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto o primeiro que Alexandre Herculano pôde encontrar para desculpar o seu aborrecimento por a vida politica, onde sempre estivera, postoque pouco tempo, contrariado e constrangido.
O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, do que entre politicos interesseiros que punham a sua candidatura a ministros.