A VOLTA DO PROSCRIPTO.
I.
Já suave a sorte dura
Mostra a face ao desterrado:
Porque surge ainda a amargura
Em seu rosto carregado?
Vento amigo ao patrio solo
Pelo mar guia o proscripto,
E um sorriso de sonsolo
Não lhe luz no rosto afflicto?
Corta a proa o mar fremente;
O cantor lá se assentou
E sua torva e altiva frente
Sobre a dextra reclinou.
Vem-lhe idéa após idéa,
Já tristonha, já serena;
Que no gesto lhe vaguêa
Ora o goso, logo a pena.
Coração affeito á mágoa
Da esperança desconfia:
Desalenta, e em viva frágoa,
É-lhe negra a noite, e o dia.
Mas se, emfim, lhe tece a sorte
Á existencia um aureo fio,
E vencendo o mar e a morte
O conduz ao patrio rio,
A que mais agora aspira
O mancebo trovador?
É por gloria que suspira?
Não lhe ri propicio o amor?
Não vê perto a terra cara,
Que chorou de dor absorto,
E nos braços dos que amára
Não terá paz e conforto?
Mas silencio!—A fronte erguendo,
Elle os olhos poz nos ceuz,
E a canção da alma rompendo
Sussurrou nos labios seus.
II.
«Rasga as ondas do pégo indomado
Leve barca: já freme o galerno:
Susta as iras o rabido hynverno:
Torna á patria infeliz trovador.
Como bate no seio ancioso
Coração que opprimiu a amargura,
Quando meiga sorrí a ventura,
Quando volve esperança de amor!
Esperança, e sómente esperança
Cabe áquelle que os mares correu,
Quem lhe diz que 'inda não o esqueceu
A donzella por quem suspirou?
Quem lhe diz não irá n'outros laços
Venturosa encontra-la e infiel,
E que a voz do remorso cruel
Para a ingrata tremenda soou?
Quem lhe diz não irá murchas rosas
Tão-sómente encontrar sobre a lousa,
Onde a amada tranquilla repousa,
onde vá juncto della expirar?
Esperança, e sómente esperança
Cabe áquelle que os mares correu:
Ella só resta áquelle que o ceu
Longos dias de dor fez passar
Eu traguei estes dias de lucto;
Encarei muitas vezes a morte;
Pude o louro colhêr dado ao forte:
Tambem myrto de amor colherei?
Ou o arbusto que outr'ora plantára,
Que por mim cultivado crescêra,
Que entre angustias jámais me esquecêra
Esquecido por ella acharei?
Como além desse cabo, que esconde
Verdes aguas do meu patrio Tejo,
A alma levam saudade e desejo!
Como atraz a compelle o terror!
Ledo o nauta saúda a guarída
Aonde incolume o vento o ha guiado,
E alegrou esse olhar carregado
Com que insulta do mar o furor.
Feliz nauta, em teu seio tranquillo
Pulsa em paz coração baixo e rude;
Fado amigo negou-te o alaúde:
Deu-m'o a mim:—para prantos m'o deu.
Nunca, pois, surgirá uma aurora
Em que nelle resoe a alegria,
E em que o triste, que a dor opprimia,
Erga um hymno de jubilo ao céu?
Nunca rir-me propicia a ventura
Sobre a terra verão estes olhos?
Será sempre cuberto de abrolhos
Agro trilho que á morte conduz?
Ou nas trévas da minha existencia
Surgirá inda um dia radioso,
Como, ás vezes, em céu tenebroso
Rompe o sol com torrentes de luz?»
III.
Já no porto a leve barca
Longa esteira desdobrou,
E ao clarão final do dia
Ferreo dente ao mar lançou.
Eis as plagas da saudade;
Eis a terra de seus sonhos;
Eis os gestos tão lembrados;
Eis os campos tão risonhos!
Eis da infancia o tecto amigo;
Eis a fonte que murmura;
Eis o céu puro da patria;
Eis o dia da ventura!...
IV.
Foi o cantor feliz?—Em breves dias
Viu-se cruzar errante incertos mares.
Sob o tecto paterno anciada noite
Elle passou; e o somno socegado
Não lhe cerrou os olhos lachrymosos.
Conta-se que o seu amor fôra trahido,
E que mirrado achou de amor o myrto,
Que deixára viçoso, e que saudára
Desde além do oceano em seu delirio.
Sobre a proa outra vez indo assentar-se,
Não entoou um hymno de alegria.
Com ar sinistro e torvo e os labios mudos
Correu co' a vista as ondas inquietas,
E, porventura, a idéa que as passára
Nas asas da esperança, e que a esperança
Tinha expirado ao limiar do goso,
Mais lhe turbou a fronte carregada.
O misero sorriu-se. Em tal sorriso
O passado e o futuro estava impresso,
E da sua alma a dolorosa noite.