Não mais o trovador no lar da infancia
Repousará talvez: talvez sua harpa
Durma pendente em solitario tronco
Do pinheiro bravio, onde a desfaça
O sôpro do aquilão. Ao desditoso
Sonho de gloria e amor tinha emballado;
Mas foi sonho, e passou, e uma existencia
Nua d'encantos despregou-se ante elle.
Quem o consolará?—De fogo essa alma
Consolo não terá, nem quer consolo.
A maldicção de Deus vestiu-lhe a vida
De padecer e lagrymas. Ignoto
Será ao mundo que surgiu na terra
O genio de um cantor, bem como planta
Morta apenas saída á flor do solo,
Ou como a aragem da manhan, que passa
Antes de o sol nascer, em dia estivo.
E que importa essa gloria ao dono della?
Esse fructo do Asphaltite que encerra
Senão cinza em involucro formoso?
Que é o eccho de um nome, que não soa
Senão sobre o sepulchro do que impresso
Na fronte o trouxe, em meio de amarguras,
Por vezes de ignominias?

«Vive, oh triste,

Esquecido do mundo, e esquece o mundo!
Nas solidões profundas da tua alma,
Vazia das paixões que a assassinaram,
Some os cantos que della transudavam
Para correr n'um seculo sem vida,
Sem virtude e sem fé, e em que desabam
As crenças todas do passado, e é sonho
A constancia e o amor.»

Palavras estas

Extremas foram do proscripto. Longe,
Em praia estranha abandonando a barca,
Qual o seu fado foi ninguem mais soube.

N'UM ALBUM.

Quando o Senhor envia
O trovador ao mundo,
Faz devorar a essa alma
Fel amargoso e immundo;
Porque lhe diz:—Poeta,
Vai conhecer a terra;
Prova dos seus deleites;
Prova do mal que encerra.
Desses e deste esgota
As taças muitas vezes,
Embora de uma e d'outra
Aches no fundo fézes:
E quando bem souberes
Que tudo é sonho vão;
Que é nada a dor e o goso,
Sólta o teu hymno então.»
E o pobre desterrado
Vem seu mister cumprir.
Nasce: homens e universo,
Tudo lhe vê sorrir;
E o seu balbuciar
Um canto é d'innocencia:
Mas outro foi seu fado;
Guia-o a providencia.
É cherubim precíto
Qu' inda entrevê o céu,
Mas através da vida,
Mas através de um véu.
Em turbilhão d'affectos,
Seu íntimo viver
Rapido lhe devora
Sperança, amor e crer.
Do goso nos deli­rios
Debalde busca o amor;
Saudade melancholica
Pede debalde á dor.
Depois, desanimado,
Pára a pensar em si,
Acha no seio um ermo,
E tristemente ri.
É desde aquelle instante
De um acordar atroz,
Que ao condemnado lembra
Do que o mandou a voz.
Então entende e cumpre
Seu barbaro destino;
Então é que elle aprende
A modular um hymno.
Virgem, ao que assim passa
Por meio do existir,
Calcando os frios restos
Do crer e do sentir,
Não peças te revele
Sua alma na poesia,
E dê aos pensamentos
O encanto da harmonia;
Porque lá, nesse abysmo,
Não resta uma illusão:
Só ha perpetua noite,
E injuria e maldicção.
Não entenderas, virgem
Ainda innocente e pura,
O canto que surgira
Dessa alma gasta e escura.
Deixa-o seguir seu norte,
Cumprir missão cruel;
Deixa-o verter o escarneo;
Deixa-o verter o fel;
Deixa-o cuspir em faces
Onde não ha pudor,
E ao mundo, ebrio de si,
Rindo ensinar a dor.
As sanctas harmonias
De cantico innocente
Sabe-as o alvor do dia
Quando rompe do oriente;
Murmura-as o regato;
Vibra-as o rouxinol;
Vem no zumbir do insecto,
No prado, ao pôr do sol;
Vivem no puro affecto
Da filial piedade,
Nos sonhos e esperanças
Da juvenil idade.
Esta poesia é tua:
Eu já a ouvi e amei;
Mas hoje nem a entendo,
Nem repeti-la sei.
Assim, meu nome só
Escreverei aqui;
Som vão, intelligivel
Apenas para ti;
Extincto candelabro
Do templo do Senhor,
Que por algumas horas
Deu luz, teve calor;
Lenda de sepultura,
Que fala em gloria e vida,
E esconde ossada infecta
Dos vermes corroída;
Pinheiro solitario,
Que o raio fulminou,
E que gemeu tombando,
E não mais murmurou.

A FELICIDADE.

Era bello esse tempo da vida,
Em que esta harpa falava de amores:
Era bello quando o estro accendiam
Em minha alma da guerra os terrores.
Nesse tempo o balouço das vagas
Me era grato, qual berço da infancia;
E o sibillo da bala harmonia
Semelhante á de flauta em distancia.
Eu corri pelos campos da gloria,
D'entre o sangue colhendo uma palma,
Para um dia a depor aos pés dessa
Que reinou largo tempo nesta alma.
Mas qual ha coração de donzella,
Que responda a um suspiro de amor,
Quando vibra nas cordas sonoras
Do alaúde de pobre cantor?
Triste o dom do poeta!—No seio
Tem volcão que as entranhas lhe accende;
E a mulher que vestiu de seus sonhos
Nem sequer um olhar lhe compr'hende!
E trahido, e passado de angustias,
Ao amor este peito cerrara,
E, quebrada, no tronco do cedro
A minha harpa infeliz pendurara.
Um véu negro cubriu-me a existencia,
Que gelada, que inutil corria;
Meu engenho tornou-se um mysterio
Que ninguem neste mundo entendia.
E embrenhei-me por entre os deleites;
Mas tocando-o, fugia-me o goso;
Se o colhia, durava um momento;
Após vinha o remorso amargoso.
Esqueci-me do Deus que adorara;
O prestigio da gloria passou;
E a minha alma, vazia de affectos,
No limiar do porvir se assentou:
Meus pulmões arquejaram com ancia,
Buscando ar na amplidão do futuro,
E sómente encontraram, por trévas,
De sepulchros um halito impuro.
Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;
Eu te achei, oh milagre de amor!
Outra vez vibrará um suspiro
No alaúde do pobre cantor.
Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu já adorei,
Quando aos pés de mulher enganosa
Meu alento em canções derramei.
Se na terra este amor de poeta
Coração ha que o possa pagar,
Serás tu, virgem pura dos campos,
Quem virá a minha harpa acordar
Como a luz duvidosa da tarde,
Quando o sol leva ao mar mais um dia,
Reverbera poesia e saudade
Na alma immensa de um rei da harmonia;
Tal poesia e saudade em torrentes
No teu meigo sorrir eu aspiro,
E no olhar que me lanças a furto,
E no encanto de um mudo suspiro,
Para mim és tu hoje o universo:
Soa em vão o bulicio do mundo;
Que este existe sómente onde existes:
Tudo o mais é um ermo profundo.
No silencio do amor, da ventura,
Adorando-te, oh filha dos céus,
Eu direi ao Senhor:—tu m'a déste:
Em ti creio por ella, oh meu Deus!»

OS INFANTES EM CEUTA.