DRAMA LYRICO EM UM ACTO.
(1415)
O infante D. Duarte.
O Infante D. Pedro.
O Infante D. Henrique.
Gulnar, filha do wali de Ceuta.
Lobna, escrava.
Haleva, escrava.
Um pagem.
Um sobrerolda.
Côro de cavalleiros portugueses.
Côro de cavalleiros mouros.
Côro de escravas, e de eunuchos negros.
SCENA I.
Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o principe.
D. DUARTE.
Eia pois, cavalleiros! Breve os mares
Cruzaremos de novo além do Estreito!
Os inimigos timidos refogem
Da conquistada Ceuta.
Pelas campinas pallidas, ao longe,
Das altas torres espraiando os olhos,
Não se vê alvejar lá no horisonte
Um albornoz mourisco.
Folgue o que volta á patria enriquecido
Pela ganhada gloria: folgue aquelle
A quem coube o desterro entre estes muros,
Por conservar erguida
Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias
O estandarte real: morrendo, é martyr:
Seu nome eterno viverá na historia.
Folgae, meus cavalleiros!
CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.
Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,
Para o velho homem d'armas d'elrei,
Que ha trinta annos nos diz:—combatei!»
Sem jámais a armadura largar!
Sob o forro do elmo pulido
Nossa fronte, senhor, se enrugou,
E estes peitos robustos quebrou
Dos arnezes continuo pesar!
Bem vinda a hora
Em que voltemos,
E emfim saudemos
O nosso lar;
Em que possamos
No patrio rio
O sol do estio
Ver scintillar;
E, dos sinceiros
Entre a espessura,
Da guerra dura
Ir repousar!