E essas memorias tristes
Minha alma laceraram,
E a senda da existencia
Bem agra me tornaram:
Porém nem sempre ferreo
Foi meu destino escuro;
Sulcou de luz um raio
As trévas do futuro.
Do meu paiz querido
A praia ainda beijei,
E o velho e amigo cedro
No valle ainda abracei!
Nesta alma regelada
Surgiu ainda o goso,
E um sonho lhe sorriu
Fugaz, mas amoroso.
Oh, foi sonho da infancia
Desse momento o sonho!
Paz e esperança vinham
Ao coração tristonho.
Mas o sonhar que monta,
Se passa, e não conforta?
Minh' alma deu em terra,
Como se fosse morta.
Foi a esperança nuvem,
Que o vento some á tarde:
Facho de guerra acceso
Em labaredas arde!
Do fratricidio a luva
Irmão a irmão lançara,
E o grito: ai do vencido!
Nos montes retumbara.
As armas se hão cruzado:
O pó mordeu o forte;
Cahiu: dorme tranquillo:
Deu-lhe repouso a morte.
Ao menos, nestes campos
Sepulchro conquistou,
E o adro dos estranhos
Seus ossos não guardou.
Elle herdará, ao menos,
Aos seus honrado nome,
Paga de curta vida
Ser-lhe-ha largo renome.
V.
E a bala sibilando,
E o trom da artilharia,
E a tuba clamorosa,
Que os peitos accendia,
E as ameaças torvas,
E os gritos de furor,
E desses, que expiravam,
Som cavo de estertor,
E as pragas do vencido,
Do vencedor o insulto,
E a pallidez do morto,
Nú, sanguento, insepulto,
Eram um cá'os de dores
Em convulsão horrivel,
Sonho de accesa febre,
Scena tremenda e incrivel!
E suspirei: nos olhos
Me borbulhava o pranto,
E a dor, que trasbordava,
Pediu-me infernal canto.
Oh, sim! maldisse o instante,
Em que buscar viera,
Por entre as tempestades,
A terra em que nascera.
Que é, em fraternas lides,
Um canto de victoria?
É delirar maldicto;
É triumphar sem gloria.
Maldicto era o triumpho,
Que rodeiava o horror,
Que me tingia tudo
De sanguinosa côr!
Então olhei saudoso
Para o sonoro mar;
Da nau do vagabundo
Meigo me riu o arfar.
De desespero um brado
Soltou, ímpio, o poeta.
Perdão! Chegára o misero
Da desventura á meta.
VI.
Terra infame!—de servos aprisco,
Mais chamar-me teu filho não sei:
Desterrado, mendigo serei;
De outra terra meus ossos serão!
Mas a escravo, que pugna por ferros,
Que herdará deshonrada memoria,
Renegando da terra sem gloria,
Nunca mais darei nome de irmão!
Onde é livre tem patria o poeta,
Que ao exilio condemna ímpia sorte.
Sobre os plainos gelados do norte
Luz do sol tambem desce do céu;
Tambem lá se erguem montes, e o prado
De boninas, em maio, se veste;
Tambem lá se meneia o cypreste
Sobre o corpo que á terra desceu.
Que me importa o loureiro da encosta?
Que me importa da fonte o ruido?
Que me importa o saudoso gemido
Da rollinha sedenta de amor?
Que me importam outeiros cubertos
Da verdura da vinha, no estio?
Que me importa o remanso do rio,
E, na calma, da selva o frescor?
Que me importa o perfume dos campos,
Quando passa da tarde a bafagem,
Que se embebe, na sua passagem,
Na fragrancia da rosa e aleli?
Que me importa? Pergunta insensata!
É meu berço: a minha alma está lá...
Que me importa... Esta bôca o dirá?!
Minha patria, estou louco... menti!
Eia, servos! O ferro se cruze.
Assobie o pelouro nos ares;
Estes campos convertam-se em mares,
Onde o sangue se possa beber!
Larga a valla! que, após a peleja,
Todos nós dormiremos unidos!
Lá vingados, e do odio esquecidos,
Paz faremos... depois do morrer!
VII.
Assim, entre amarguras,
Me delirava a mente;
E o sol ia fugindo
No termo do occidente.
E os fortes lá jaziam
Co'a face ao céu voltada;
Sorria a noite aos mortos,
Passando socegada.
Porém, a noite delles
Não era a que passava!
Na eternidade a sua
Corria, e não findava.
Contrarios ainda ha pouco,
Irmãos, emfim, lá eram!
O seu thesouro de odio,
Mordendo o pó, cederam.
No limiar da morte
Assim tudo fenece:
Inimizades calam,
E até o amor esquece!
Meus dias rodeiados
Foram de amor outr'ora;
E nem um vão suspiro
Terei, morrendo, agora,
Nem o apertar da dextra
Ao desprender da vida,
Nem lagryma fraterna
Sobre a feral jazida!
Meu derradeiro alento
Não colherão os meus.
Por minha alma atterrada
Quem pedirá a Deus?
Ninguem! Aos pés o servo
Meus restos calcará,
E o riso ímpio, odiento,
Mofando soltará.
O sino luctuoso
Não lembrará meu fim:
Preces, que o morto afagam,
Não se erguerão por mim!
O filho dos desertos,
O lobo carniceiro,
Ha-de escutar alegre
Meu grito derradeiro!
Oh morte, o somno teu
Só é somno mais largo;
Porém, na juventude,
É o dormi-lo amargo;
Quando na vida nasce
Essa mimosa flor.
Como a cecem suave,
Delicioso amor;
Quando a mente accendida
Crê na ventura e gloria;
Quando o presente é tudo,
E inda nada a memoria!
Deixar a cara vida,
Então, é doloroso,
E o moribundo á terra
Lança um olhar saudoso.
A taça da existencia
No fundo fézes tem;
Mas os primeiros tragos
Doces, bem doces, vem.
E eu morrerei agora
Sem abraçar os meus,
Sem jubiloso um hymno
Alevantar aos céus?
Morrer, morrer, que importa?
Final suspiro, ouvi-lo
Ha-de a patria. Na terra
Irei dormir tranquillo.
Dormir? Só dorme o frio
Cadaver, que não sente;
A alma voa a abrigar-se
Aos pés do Omnipotente.
Reclinar-me-hei á sombra
Do amplo perdão do Eterno;
Que não conheço o crime,
E erros não pune o inferno.
E vós, entes queridos,
Entes que tanto amei,
Dando-vos liberdade
Contente acabarei.
Por mim livres chorar
Vós podereis um dia,
E ás cinzas do soldado
Erguer memoria pia.
A VICTORIA E A PIEDADE.
I.
Eu nunca fiz soar meus pobres cantos