Debalde o servo ingrato
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Oh veneranda cruz:
Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És sancta, és immortal;
Tu és a minha luz!
Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, á noite, fez nos céus.
Teu vulto scintillar.
Os raios das estrellas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.
Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til,
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.
Ferido, abre o guerreiro
Os braços, sólta um ai,
Pára, vacilla, e cáe
Para não mais se erguer.
Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.
Surges, symbolo eterno
No céu, na terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!

LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.

A PERDA D'ARZILLA.

(1549).

Era noite: do céu limpo e sereno
Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.
Como tocheiros com brandões accesos,

De um féretro ao redor,

Cuja vermelha luz o horror da morte

Só faz sentir melhor,

Taes as nocturnas almenáras fulgem