E cá? O engenho

Nem crê, nem sente bafejar-lhe um canto
O crepusculo, a lua, a aragem fresca,
O arrebol da manhan, ou céu sereno
Por noite escura recamado de astros.
Harpa meridional, porque, no extremo
Da terra patria, o trovador errante
Não deixaste partir só com seus males?
Porque vieste, oh filha do occidente,
Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas
De céu septentrional? Tu, pobresinha,
Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,
Sem haver mão que te vibrasse as cordas,
Jazesses esquecida, ainda soáras
Com incerta harmonia. Ás horas meigas
Em que o dia se esvai, placida a brisa,
Que espira do oceano e encrespa as vagas,
Passaria por ti, e te agitára,
E murmuráras som que respondera
Trémulo, fraco, á flauta dos pastores
Sussurrando suave entre as quebradas
Da montanha selvosa. E aqui? És muda;
És muda, que essas cordas carcomiu-t'as
Este ar gelido e turvo, e qual o engenho
De teu dono, no viço da existencia,
Envelheceu, envelheceste, oh harpa!
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IV.

Berço do meu nascer, sólo querido,
Onde crescí e amei e fui ditoso,
Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!
Quando, aterrado ante o minaz aspecto
Do anjo de Deus, tremente vagueiava
Nosso primeiro pae em volta do Éden,
Não lhe tecia tanto de amarguras
A vida o duro affan com que trocava
Pelo pão o suor co' a avara terra;
Não era tanto o traspassar-lhe os membros
O hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'os
O sol estivo, e o magoar, errante,
Os pés feridos nos tojaes bravios
Pelas sendas que abria em ermos valles,
Como as saudades de passados tempos,
Dessa infancia viril, em que surgira,
Para viver e amar, do barro inerte;
Não o pungia tanto o mal presente
Como a recordação dos claros dias
De innocencia e de paz que alli vivêra.
A primavera eterna, as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O frémito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas tão ricas de mysterios,
De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;
Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos
Vingadora a memoria inexoravel.
Por entre a bruma da estação chuvosa
Passavam-lhe de abril perfumes, galas;
Sob estuoso sol vinha a saudade
Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio
E o ramalhar dos platanos copados.
Por tenebrosas noites de procella,
Quando a torrente e o vendaval bramiam,
Cria d'entre o fragor ouvir romperem
Os matutinos canticos das aves,
E ver no pégo reflectir-se a lua.
Longe, assim, do seu berço, o criminoso
Com dura punição remia o crime:
Mas para o consolar na senda agreste,
Em cujo termo o esperava a morte,
O severo juiz deixára ao triste
De uma esposa querida o seio casto,
Onde aspirar o amor, olhos que o pranto
Misturassem co'o seu. Perdendo a patria
Perdia encantos só de natureza
Formosa e juvenil. As harmonias
Dos corações, os misticos affectos
Não lhe truncou a espada flammejante
Do cherubim ao repelli-lo do Éden:
Para elle a patria renasceu no exilio.
Eu, prófugo como elle, o Éden nativo
Perdí; e perdí mais. Despedaçados
Os affectos de irmão, de amante, e filho
Restam-me na alma qual buída frecha,
Que no peito ao cravar-se estala e deixa,
Cahindo, o ferro na ferida occulto.
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V.

Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria
Me reflecte, alta noite, a tua imagem
Por entre um véu de involuntario pranto!
Quão triste cogitar em mim desperta
A imagem cara! Á noite, o bom do velho
As bençams paternaes de Deus co' as bençams
Sobre minha cabeça derramava,
E ao começar o dia; e ellas desciam
A um coração exempto de remorsos
Onde encontravam filial piedade.
E agora? É-lhe mysterio o meu destino.
Qual o seu para mim o exilio occulta.
Saciado, talvez, de dor e affrontas
Dorme já sob a campa o somno eterno?
Suas trémulas mãos não mais lançar-me
Virão a bençam da piedade? O extremo
Arranco seu não roçará meus labios?
Ah, se um dia raiar para o proscripto
O suspirado alvor do sol da patria,
E se entre nós de um í­mpio as mãos ergueram
A barreira da morte, ai delle, ai delle!
E tambem, ai de mim!.......................
....................... Mas se 'inda um filho
Houver digno de o ser, eu criminoso
Terei quem me deplore; mãos que plantem
No adro deserto onde jazer maldicto
Um cypreste, uma flor, e quem deponha
Aos pés do throno do juiz supremo
Por mim, uma oração fervente e pia.
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VI.

Arvores, flores, que eu amava tanto,
Como viveis sem mim? Nas longas vias,
Que vou seguindo peregrino e pobre,
Sob este rude céu, entre o ruído
Dos odiosos folgares do sicambro,
Do monotono som da lingua sua,
Pelas horas da tarde, em varzea extensa,
E ás bordas do ribeiro que murmura,
Diviso ás vezes, em distancia, um bosque
De arvoredo onde bate o sol cadente,
E vem-me á idéa o laranjal viçoso
E os perfumes de abril que elle derrama,
E as brancas flores e os dourados fructos,
E illudo-me: essa varzea é do meu rio,
Esse bosque o pomar da minha terra.
Aproximo-me; o sonho de um momento
Então se troca em acordar bem triste,
Como surge e se esvai por entre as nevoas
Vulto indeciso nos cantares d'Ossian.
É uniforme e torva esta verdura,
Acre o cheiro que exhala este arvoredo,
Mal-assombrado o rio, humido o valle,
Frio do sol o raio derradeiro
Espirando neste ar denso e pesado,
Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,
E rouba aos olhos horisonte immenso.
Ai, pobres flores que eu amava tanto,
Por certo não viveis! O sol pendeu-vos
Mirradas folhas para o chão fervente:
Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,
E morrestes. Morrestes sobre a terra,
Que por cuidados meus vos educára.
E eu? Talvez nestes campos estrangeiros
Minha existencia o fogo da desdita
Faça pender, murchar, ir-se mirrando
Sem que torne a ver mais esses que amava,
Sem que torne a abraçar a arvore annosa,
Que se pendura sobre a limpha clara
Lá no meu Portugal, onde a frescura
Da ribeira perenne, da floresta
Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida!
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VII

Eu já vi n'uma ilha arremessada
Ás solidões do mar, entre os dous mundos,
Vestigios de volcões que hão sido extinctos
Em não-sabidos seculos. Scintillam,
Aqui e alli, nos areientos plainos,
Onde espinhosas sarças só vegetam,
Restos informes de metaes fundidos
Pelas chammas do abysmo, entre affumadas
Pedras que em parte amarellece o enxofre,
Que a lava em rios dispersou, deixando
Só delle a côr em lascas arrancadas
Das entranhas dos montes penhascosos.
A natureza é morta em todo o espaço
Que ella correu, no dia em que, rugindo,
Da cratéra fervente, á voz do Eterno,
Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,
A engoliu e passou, qual sumiria
De soçobrada nau celeuma inutil.
Tal é meu coração. Bem como a lava
É o desterro ao trovador. Meus olhos
Hão-de esquecer as lagrymas; que a seiva
Do vivido sentir vai-se queimando
Ao suão mirrador de atroz saudade,
Que excede tudo em dor; excede a de orpham,
De viuva, de mãe que sobre o berço
Vê jazer morto o pallido filhinho.
E porquê? Porque ahi ha inclinar-se
Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se
Com suspiros e prantos desses restos,
Que vão quedos dormir em adro antigo,
Onde os avós já dormem; onde ha patria,
Ha fami­lia, ha irmãos.—Cá, tudo é ermo,
E a dor está no coração do prófugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
A dor aqui é gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem,
E até em sorrir nosso; está sentada
Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no pão que nos esmolam,
Enroscada, qual cobra peçonhenta,
No nodoso bordão do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.
E depois, o morrer em leito alheio;
Despedir-se de um sol que não é esse,
Que, na infancia, nos fez florir os prados,
Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;
Volver em torno os olhos moribundos
E não ver uma lagryma; inclinar-se
E não achar um seio feminino,
Ou de esposa ou de mãe, onde repouse
A fronte accesa por ardente febre;
E pensar entre as ancias derradeiras,
Que será terra estranha a que nos trague;
Que será til do norte o que proteja
Nosso humilde moimento, a verde gleba,
Onde de pinho a cruz por dous invernos
Apenas luctará co'a negra nuvem
Do esquecimento eterno, unica herança
Do que expirou no exilio!