Amarguradas
São taes cogitações para o que sente
No seio em ondas trasbordar-lhe a vida.
Quaes, porém, não virão ao pobre velho,
Que, arrancado das bordas do seu tumulo,
Foi por cima dos mares arrojado
Para juncto do umbral de um cemiterio,
Onde não achará paternos ossos,
Para ao pé delles se deitar morrendo?!
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VIII.
Quando nos luz o sol no céu da patria,
Embora sobre nós verta a desdita
Torrentes de amargura, ha um consolo:
É o altar e a oração. Ao desterrado
Nem sequer isso resta. O templo alheio
É como ermo de Deus; como que param
Nesse craneo de marmore arqueado
Do gigante edificio as tristes preces
Em lingua estranha proferidas. Gelidas
E duras são do pavimento as lageas
Para quem sabe certo não o escutam
Mortos que muito amou; que nesse tecto
Vai bater frouxa uma oração discorde
Entre mil orações.
«É falso! É impio!—
A razão o dirá—De Deus o templo
É o mundo. No cimo das montanhas
O nome do Senhor sussurra em sopro
Do vento que passou rasgando as asas
Pelo cardo bravio; a gloria delle
Di-la o rolo do mar correndo á praia;
É o seu hymno o canto da avesinha
No salgueiro que pende e se balouça
Sobre o arroio do valle, e é do regato
O murmurinho o cantico nocturno
Mandado pela terra silenciosa
Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos
Que pelos céus harmoniosos gyram.
Esses montões de cinzeladas pedras
De columnas e torres, que se elevam
Como as mãos junctas de quem resa, apenas
São um memento da oração, um marco
Posto no ermo da vida, que nos lembre
Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,
Que é senhor e que é rei, que é pae e entende
O vento, o mar, os astros, a avesinha,
O sussurrar do arroio humilde, e as preces
De milhões d'orbes em milhões de linguas.»
Ao brado da razão só não se dobra
O coração do desterrado!
Embora
Sob as asas do amor abrigue o Eterno
Homens, nações e o mundo: o amor por elle
Nasce, cresce, vigora-se enredado
Com os beijos de mãe, com sorrir meigo
De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
O pôr do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.
Quando isso tudo se converte em sombra,
Que em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissimo ou phantasma
Á meia-noite visto, á luz da lua,
Ao longe entre arvoredo: quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trévas
Pela antena da nau do vagabundo;
Quando a dor sua em olhos de ente vivo
Não achou uma lagryma piedosa,
E nos seus proprios são vergonha as lagrymas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,
Não sobre seio que as esconda e enchugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; então o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O coração do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus soçobra e morre
Entre o bramir de maldicções e pragas.
Oh, do desterro o mal supremo é este!
É o seccar-se o coração; mirrar-se
Como a sarça do monte em fins d'estio;
É o descrer, e o blasphemar do Eterno.
Se aos céus levanta o desgraçado os olhos,
É que primeiro os pôs lá no futuro,
E, bem que tenue luz, um fulgorzinho
Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro:
Mas quando se ergue um muro intransitavel
Entre nós e a ventura; quando ao longe
Pelos campos da vida é tudo pallido
E perece a esperança, então a mente
Recúa com horror, e dando em terra,
Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,
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