No mosteiro vai fundo o silencio;
Um silencio que gera terror;
Só nos tectos, que banha o luar,
Sólta o mocho seu pio de horror:
Só o vento que gyra nos pateos,
E se engolfa na escada ogival,
Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,
Que ladeiam normando portal.
Meia noite. E na crasta deserta
Não reboam os ecchos do sino,
Que, vagando, murmuram nas cellas:—
São as horas do officio divino.»
Meia noite! Bem como na torre
Voz de bronze dormente parece,
Tal o monge, na dura jazida,
Priguiçoso do templo se esquece.
Monge, o brado nocturno do sino
Ao resar não te chama, é verdade;
Mas talvez já no topo do côro
Somnolento te espera o abbade.


Este grito

Repetiram-no os ecchos inteiro;
E, bem como em resposta á pergunta,
Retumbou:

—Está só o mosteiro!»


Pouco ha inda, na alta noite
Passava no espaço a lua,
Dos ulmos a cima ondeava
Negra, qual ora fluctua:
Mas tenebroso silencio
Não ía, como ora vai:
Bradava o sino da torre
Aos monges dizendo:—orae.»
E pelos vidros córados
Reverberava fulgor;
De passos no longo claustro
Soava tenue rumor.
Depois, lá dentro na igreja,
Em côro alterno rompia
O canto lento dos monges,
Que ás vozes do orgam se unia:


Porém, como se ao sopro do archanjo
A trombeta final retumbasse,
E da vida o tumulto na terra
Ao terrivel signal expirasse,
Assim do orgam calou a harmonia,
E dos córos os hymnos calaram,
E os fulgores das lampadas frouxos
Das vidraças não mais transudaram.

II.