D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em Saint-Malo.

A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta ao castello.

Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.

Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto observar uma e outra.{182}

A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.

Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas deixam apenas estreitas passagens aos navios.

O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam arrombar.

Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios, rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco, estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia, durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.

As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas muralhas.

Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em turbilhões d'espuma, a enorme altura.{183}