Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, pouco antes do comboio se pôr em marcha.

De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.

Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.

Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu amor n'um tom serio que não lhe era habitual.

—Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso admirador.

A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.{267}

Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a prudencia com que estava resolvida a responder.

Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que sentia por elle.

Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e tornou-se inimigo de Laura.

—Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!