—Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me com esse homem.{317}

—Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.

Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.

Depois proseguiu:

—Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as nossas existencias, como puzemos os nossos corações?

Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.

Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa com phrases ternas.

—Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A noticia...—fallemos baixo!—desejava esperar alguns dias para te fallar nisso... Mas não...{318} não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim! Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha mãe!

Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco d'alegria.

—Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.