Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a chorar, chamando-se desgraçada!
Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.
Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior, que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu verdadeiro e acrisolado amor.
Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto, sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta.
--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por piedade, diz-me o que tens!
--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda.
--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te aconteceu!
E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças.
Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:
--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos. Magdalena... Magdalena...