--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.

--Sim.

--Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como á pomba rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.

--É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo, e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou rica; não ha vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha, apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora, sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho, vejo-me só, e tenho saudades, cabinda...

O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente, apenas ella acabou:

--É a alma do branco que vem fallar á alma da senhora moça.

--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia.

--Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os filhos, mas o branco não apparece.

--Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro lhe dizia.

--O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o logar do coração. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é que ha de vir cural-a.