--Como?
--Não sei.
--Quando?
--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no cannavial, quando o negro andava á caça, e no rio, quando dormia dentro da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro não soffreu mais, nem tornou a chorar.
Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.
Estava ella na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras flôres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu.
Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.
Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete, para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma vasta varanda.
Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e n'uma attitude de quem esperava alguem.
Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou: