Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle varios Marios. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e—«julgava não ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.»
O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande guerreiro, de conquistador civilisador.
Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes.
1.º—A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.
Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por uma escrava, que não era confidente.—«No dia seguinte, diz Plutarco, toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»
Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém, como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle respondeu:
—É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.
2.º—Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em Roma.
Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior, elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia, perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe, gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam tambem debates n'essa miseravel terra.
—«Não riam—respondeu o futuro dictador—eu gostaria mais de ser o primeiro n'esta aldeia, que o segundo em Roma.»