3.º—Passar o Rubicão.

Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado n'essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma, onde tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu, que começava a receiar ver-se o logro d'aquelle de que elle se tinha imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer, com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil. Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta, Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou alguns instantes.

«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz Lacordaire, thronos mudando de senhores, e fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o que tinha illuminado o genio dos maiores d'entre os homens. Cezar, no Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle se dissera:—«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda: desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»

—«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos nossos inimigos. Alea jacta est!—a sorte está lançada!»

Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou para se salvarem pela sorte.

4.º—Levas Cezar e a sua fortuna.

Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar, deixou Roma acompanhado d'um grande numero de senadores, magistrados e cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o. Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na critica circumstancia em que se achava toma a resolução d'ir ao encontro d'Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto. É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco:

—«Que receias? levas Cezar e a sua fortuna!»

E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia.

5.º—Soldado, fere no rosto!