É, pois, na conjuncção d'estes dois elementos que deverá consistir o arduo e difficultoso trabalho do poeta moderno: se o realisar, a sua obra occupará um logar perduravel entre os monumentos artisticos da sua épocha; se o não conseguir, vêr-se-ha collocado, quando muito, entre a ephemera cohorte dos operarios da prosa, e por mais que diga, por mais que se contorsa, por mais que rechêe a sua obra de assombros de pensamento, de bonitos de phrase, e de floripondios de estylo, como diria sua excellencia o bispo de Bethesaida, ainda em vida a verá sepultada nos abysmos insondaveis d'um eterno esquecimento.
É no sentido que deixamos esboçado que em França os antigos parnasianos, e uma enorme phalange de poetas mais novos, trabalham os seus poemas, sobresahindo entre elles pela sua mais perfeita comprehensão do elemento musical, no La Nature, Maurice Rollinat, o compositor das Nevroses.
As suas poesias são tão musicaes que podem cantar-se, e elle mesmo, ainda ha pouco, com uma entoação estridente e angustiosa, que produziu uma sensação inexprimivel nos que o ouviam, cantou uma d'ellas, o rondó: Les yeux morts:
«De ses grands yeux, chastes et fous,
Il ne reste pás un vestige.
Ses yeux, qui donnaient le vertige
Sont allés ou nous irons tous.
En vain ils étaient frais et doux
Comme deux bluets sur leur tige:
De ses yeux, chastes et fous,
Il ne reste plus un vestige.
Quelquefois, par les minuits roux,
Pleins de mystères et de prestige
La morte autour de moi voltige...
Mais je ne vois plus que les trous
De ses grands yeux chastes et fous!»
Entre nós, o movimento evolutivo, a que nos temos referido, fôra, como dissemos, iniciado espontaneamente em Coimbra por uma geração de poetas que, com os seus adeptos, formam actualmente uma pleiade de artistas que só tem por egual a pleiade dos poetas francezes.
Eram e são os que o professor do Curso Superior de Lettras, Theophilo Braga, o Linneo da nossa litteratura, classifica, na sua ultima obra, com o desdem olympico de um metrificador de cyclos, da maneira seguinte: poetas que tratam unicamente da fórma.
No emtanto, em que peze ao illustre cathedratico, para elles, excluido um, já ha muito fulgura, no Templo da Arte, o antigo fas vobis limina divuum.
Alfredo Campos não é um d'esses poetas, mas se não é rigorosamente um parnasiano, mostra nas suas poesias, que, como João de Deus, tem musica na alma, e essa musica interior muitas vezes suppre, o que a arte, para os mesmos effeitos, laboriosamente obtem. Muitos dos seus sonetos poderiam ser assignados por Diogo Bernardes, e as bellas estrophes, que vão lêr-se, revelam que o seu talento malleavel não se affrontaria diante de uma obra mais completa, se com ella se propozesse enriquecer a nossa litteratura.
11-2-94.
João Penha.