A este respeito, transcreveremos aqui as idéas que já n'outra parte expozemos.

«Em toda a composição poetica é indispensavel o elemento musical; sem este elemento, essa composição, embora rithmada e rimada, não transpõe os limites da prosa. Tanto o prosador, como o poeta, trabalham a mesma materia prima: o pensamento; o primeiro, porém, é apenas uma especie de artifice mechanico: extrahe da pedreira cerebral e transporta para o papel as idéas que ahi se lhe formam: executa.

O trabalho do segundo é mais elevado e complexo: o poeta cria.

Assim como nem toda a pedra é adequada e serve para a estatua que um Buonarotti se proponha fazer, assim nem todo o pensamento póde ser objecto de um poema.

O artista, sem o procurar, escolhe, entre os que espontaneamente lhe germinam no intellecto, aquelle que o seu espirito de selecção prefere; expurga-o das impurezas da vulgaridade, que lhe empanem a originalidade nativa, e depois reveste-o, por meio de processos extremamente complicados, da fórma que o torna visivel no mundo exterior.

Esses processos não consistem unicamente na escolha de palavras e locuções, e na regularidade do rithmo e da consonancia; consistem sobretudo na escolha dos sons que essas palavras devem produzir, combinadas umas com as outras, de modo que a composição musical, que d'ahi resulte, deve estar de harmonia com o pensamento que as mesmas palavras contêm, isto é, a tacitura e a notação melodica dos vocabulos, abstrahindo-se das idéas que n'elles estão incluidas, devem revelar, embora vagamente, o conjuncto d'essas mesmas idéas.

Os tres grandes poetas romanos, e sobretudo Horacio, attingiram esta perfeição do verso.

Leia-se uma ode d'aquelle poeta a um individuo que ignore completamente a lingua latina, a um professor d'essa lingua, por exemplo, e elle, só pela harmonia mysteriosa das estrophes, indicará o assumpto de que o poeta se occupou: Meyerbeer, Beethoven e Mozart collaboraram nas obras de Hugo, Musset e Lamartine».

Os fundamentos d'esta nossa theoria, que talvez pareça a uns imaginaria, e a outros inexequivel, assentam em factos absolutamente experimentaes.

Observe-se uma joven doente. As palavras que instinctivamente emprega para exprimir a tristeza da sua alma, e os soffrimentos de que se queixa, são adequadas ao seu estado, não só pelo tom lugubre e pelos pensamentos que encerram, mas tambem pela inflexão lamuriante e chorosa que lhes imprime. Observe-se, pelo contrario, um homem feliz e contente: se falla, se conta as suas aventuras, ha na sua voz a vibração das notas claras, estridentes e sonorosamente agudas: entre os seus pensamentos, e a parte musical que os reveste, ha uma harmonia completa, embora inconsciente.